segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Por do Sol de Agora.

O sol fez uma linha de luz no horizonte. As nuvens de um dia de chuva estão simetricamente lineares, conspirando para a geometria alaranjada. As montanhas de uma serra rotineiramente transposta, sem se fazerem de rogadas, produzem a cama para o deleite do Astro Rei.
Alinhados estes imortais elementos em um momento raro, era como se me colocassem os olhos da alma no corpo constantemente violentado pela rapidez dos acasos. Testemunho da carne que goza desse agora. Em um gozo iluminado por este pôr do sol que pode não se repetir mais, e é essa a minha urgência. Outros virão, mas não serão como este, serão outros. E se o espírito não tivesse presenciado essa luz de adoração, teria perdido esse simples presente, presente com laço de nuvens e o presente que já ficou no passado.
E aquele agora?
Agora já virou o passado marcado daquela simetria. Escureceu.
Ficou a ardência em uma memória. Na inocente espera de outros agoras.
[De uma flor da Terra, nascida da Água e que tem o Sol - suas formas, ugências e efemeridades - como objeto de adoração]

domingo, 31 de outubro de 2010

MAGIC (toda Bruxa é uma Mulher que Peca, ou toda Mulher que Peca é uma Bruxa?)


tento todas as sensações
testo todos os elementos
danço solta com o vento
me iludo me vendo
em todas as direções.
ando meio devagar
sou melhor no despropósito
e no instinto
não me escondo, não minto
nem de longe me admito
sou assim meio de mar…
guardo os meus encantos
se não fosse pagar o preço
de todo desejo que eu esqueço
eu sorriria mais; então eu penso
que o tempo pra mim é só o começo
e o veneno dos anos eu aqueço,
eu engano.





AO MEU PÁSSARO DO SUL

«Queria encontrar para ti a palavra que abrisse em asas a paz . após por amor o combate constante . Hasteasse em flâmula a madrugada sem frio . orvalho quente depois do cio da aurora . fruto ovulado ao sol . Soletrada com um canto no meio . e um tango argentino entredentes . Uma palavra para morder! . em idioma de duas línguas . sumo a escorrer pelo cheiro da pele tua . Nua, a palavra guardaria sementes num girassol . Carrossel de letras aladas, onde amarrar os olhos que me deste - ao invés de pupilas, hoje papoulas… canteiro das obras que, em afã, desabrochaste-me a ver . Uma palavra para olhar, para inspirar, para arder! . com um calor de cheiro à vida na impretérita longitude do tempo . espera que só sabe quem planta . sabor que só sente quem alcança da maçã a latitude . Palavra apenas falada com a pronúncia da tua voz . com teu timbre estrondando em maiúscula . fragrância sedutora a café . forte como o amor que [e]coas . Querendo-te a palavra perfeita . abro a boca do meu céu . e como chuva em solo nordestino . só me cai, ao Sul do papel, um risco de Pássaro.»



Expectativas

O vento anda ficando mentiroso.
Prometeu trazer você, não trouxe.
Ficou de dizer o porquê, não disse.
Esperou que eu me distraísse,
passou depressa, rumo ao horizonte.
Já não tem importância
que cometa outra vez,
um ato de inconstância..
Aprendi a esperar...
Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora, também,
são capazes de fazer voltar.

 

Como nascem as manhãs


 O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece.

O guardador de rebanhos


Nem sempre sou igual ao que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Tarde


.Quando estiver velha, mente plana
e sem este desejo louco
com as Memórias dividindo minha cama
e a Paz dividindo meu fogo
Pentearei meus cabelos em dois coques
sob minha touca limpa arrumada
e olharei minhas mãos cansadas sem choques
no meu colo espalmadas
E terei robes de floridos panos
com rendas minha garganta beijando
mas oh, espero que esses abençoados anos
não estivessem se aproximando!
.

A Ventania



Aqui a ventania  não dorme,
com suas mãos crepitantes,
seus guizos,
seus adereços de campainhas eóleas.
Dia e noite vagueia pelos parques e pelas ruas,
a ventania
Sacode as alvas roupas que os lavadeiros estendem,
inclina as flores,
levantas folhas secas
alisa a poeira amarela,
açula gatos e cães,
revolve os cabelos dos homens,
incha os imensos véus das mulheres de olhos vítreos,
apalpa as areias, as pedras, as sementes caídas,
espia dentros dos ninhos, brune os pequenos ovos,
tufa a penugem dos pássaros,
balança as plantas,
entontece as árvores:
a ventania.

Retrato ao luar

Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores:
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.

O Beijo

O BEIJO 

O beijo que te mandei
e que fez curva no céu azul
era feito de nuvem e de mar.

Nele viajavam gotas rubras
de morangos que roubei e
das rosas que deixei em sua casa.

O som que o beijo levava
era dos pardais jovens que
você criava a pão de leite na janela.

E a maciez era da barriguinha
do gatinho que saiu do banho e
está quente na palma de sua mão.

SENHOR!




Com renovadas notas eu canto
A tua beleza, o teu encanto,
Porque tu secas o meu pranto,

Quando aos teus pés deposito flores,
Em meio às preces dos teus seguidores
Pela remissão dos pecados e das dores.

O teu perdão é divino, benfazejo,
Envolve as almas como um beijo
E, amar-te mais é o meu desejo,

Porque tu és a estrela que me guia,
E iluminando a noite que me confundia,
Fizeste nascer, para mim, um novo dia,

Que alumiou a escura caverna
Onde, perdida, procurava a lanterna
Da tua centelha que as almas governa.

Já não me assusta, da vida, o agitado mar,
Nem temo, do naufrágio, o pesar,
Porque a fé é o meu porto, o meu altar,

Implantado no fundo do coração,
E não é preciso elevar construção
A partir das raízes do chão,

Para agradecer o milagre da vida,
A graça da felicidade vivida
Até o dia da eterna partida.