domingo, 31 de outubro de 2010

Tarde


.Quando estiver velha, mente plana
e sem este desejo louco
com as Memórias dividindo minha cama
e a Paz dividindo meu fogo
Pentearei meus cabelos em dois coques
sob minha touca limpa arrumada
e olharei minhas mãos cansadas sem choques
no meu colo espalmadas
E terei robes de floridos panos
com rendas minha garganta beijando
mas oh, espero que esses abençoados anos
não estivessem se aproximando!
.

A Ventania



Aqui a ventania  não dorme,
com suas mãos crepitantes,
seus guizos,
seus adereços de campainhas eóleas.
Dia e noite vagueia pelos parques e pelas ruas,
a ventania
Sacode as alvas roupas que os lavadeiros estendem,
inclina as flores,
levantas folhas secas
alisa a poeira amarela,
açula gatos e cães,
revolve os cabelos dos homens,
incha os imensos véus das mulheres de olhos vítreos,
apalpa as areias, as pedras, as sementes caídas,
espia dentros dos ninhos, brune os pequenos ovos,
tufa a penugem dos pássaros,
balança as plantas,
entontece as árvores:
a ventania.

Retrato ao luar

Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores:
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.

O Beijo

O BEIJO 

O beijo que te mandei
e que fez curva no céu azul
era feito de nuvem e de mar.

Nele viajavam gotas rubras
de morangos que roubei e
das rosas que deixei em sua casa.

O som que o beijo levava
era dos pardais jovens que
você criava a pão de leite na janela.

E a maciez era da barriguinha
do gatinho que saiu do banho e
está quente na palma de sua mão.

SENHOR!




Com renovadas notas eu canto
A tua beleza, o teu encanto,
Porque tu secas o meu pranto,

Quando aos teus pés deposito flores,
Em meio às preces dos teus seguidores
Pela remissão dos pecados e das dores.

O teu perdão é divino, benfazejo,
Envolve as almas como um beijo
E, amar-te mais é o meu desejo,

Porque tu és a estrela que me guia,
E iluminando a noite que me confundia,
Fizeste nascer, para mim, um novo dia,

Que alumiou a escura caverna
Onde, perdida, procurava a lanterna
Da tua centelha que as almas governa.

Já não me assusta, da vida, o agitado mar,
Nem temo, do naufrágio, o pesar,
Porque a fé é o meu porto, o meu altar,

Implantado no fundo do coração,
E não é preciso elevar construção
A partir das raízes do chão,

Para agradecer o milagre da vida,
A graça da felicidade vivida
Até o dia da eterna partida.
 
Soneto da Separação


   

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

O segredo♥♥♥

O segredo está na alma...

Quando amamos é difícil

Não pensarmos no amor...

Mesmo que esse amor tenha nos ferido...

É mais forte que nós mesmos...

Pois não temos controle...

É algo que nos domina...

Por isso devemos ocultar...

Esse amor em nossa alma...

Até silenciar e morrer...

Machuca o silêncio...

Mas é a única forma...

De matarmos esse amor...

É entrando no silêncio...

Da nossa alma e fazer...

O amor morrer em nós...

É como calarmos✿


Calar o amor e calar o grito...

Que mora dentro de nós...

É calar a nós mesmos e o choro

Que nos afoga...
Fadas e Bruxas


Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com o sol,
a outra escreve com a lua.


Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.


Uma é séria, a outra sorrí;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo...
a outra sonha acordada.

Palavras de Silêncio



Meu silêncio
na correnteza da vida,
vem da lágrima do tempo
que verte em minha face

Gotas em cristal
se petrificam como saudades
eternizadas na alma,
onde a vista não alcança

Afasto as miragens
que se acercam de mim,
andando em calçadas opacas
transformando-se em ciladas
as palavras inacabadas