quarta-feira, 31 de agosto de 2011

MOMENTO VERMELHO


Raiando o dia. A madrugada sangra.
De rubras raias o céu, lento, veste
Um horizonte. Visto desta angra
Há pouco um breu que não deixava leste

Tudo encobria. Até a alva areia
Se confundia ao mar na escuridão
Formando um muro alto, sem ameia,
Na negritude dominante então.

Mas eis que o Sol, aos poucos, se apruma:
Primeiro rubro, sem a luz dourada
Que irá fazer a areia e a branca espuma

Aparecerem como que do nada.
Mas, por enquanto, não há luz nenhuma.
Apenas raia, sangra a madrugada.

Ar de Noturno


Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.

O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !

As Palavras Interditas

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

A CANÇÃO DA SAUDADE

Que tarde imensa e fria!
Lá fora o vento rodopia...
Dança de folhas... Folhas, sonhos vãos,
que passam, nesta dança transitória,
deixando em nós, no fundo da memória,
o olhar de uns olhos e a carícia de umas mãos.

Ante a moldura de um retrato antigo,
põe-se a gente a evocar coisas emocionais.
Tolda-se o olhar, o lábio treme, a alma se aperta,
tudo deserto... a vide em torno tão deserta
que vontade nos vem de sofrer mais!

Depois, há sempre um cofre e desse cofre
tiramos velhas cartas, devagar...
É a volúpia inervante de quem sofre:
ler velhas cartas e depois chorar.
Que tarde imensa e fria!

Nunca mais te verei... Nunca mais me verás...
Lá fora o vento rodopia...
Que desejo me vem de sofrer mais!

Mãe

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

GIRA, GIRA, GIRASSOL



Amanhece o dia e eles se erguem
Buscando nos raios de sol o seu norte
A luz solar as flores perseguem
Ao meio dia assume todo seu porte

Girassóis amarelos e reverentes
Para da luz retirar seus nutrientes
Girassóis assim sempre a girar
Como gira a vida sem nunca parar

Somos também girassis ansiosos
Buscando da luz os raios dadivosos
Nos nutrindo de energia divinal
Na vida afastando de nós o mal

Girassóis humanos a nos nutrir
Da dadiva da vida a aprender
Na esperança de um eterno porvir
Em outro lugar onde iremos viver.

Esta Saudade



Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dos anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram...

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento.

O Apanhador de Desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água, pedra, sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos,
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

É o cansaço da vida, esperar

*

Agressivas são as nuvens de tão rutilantes, entre sol e chuva.
Surgem delas aves que volteiam, livres.
Invejo-as.
Ofereço-lhes o tudo que as minhas mãos guardam para que o levem com elas para o infinito, para a eternidade.
Mas livres, tontas de liberdade e de espaço, as aves nem dão por mim.
Seguem. Seguem outro destino...
Recolho nos braços uma certa ternura que deixaram pairando no ar.
E espero.
É o cansaço da vida, esperar.
Esperar, olhando o mar, olhando o céu.
Nesta espera me consumo e me alento.

******
Rumo a ti, mar, e banho os olhos no azul salgado da tua água.
Deixo que passes as tuas ondas frescas sobre a minha cabeça.
Reabro os olhos e vejo-me perdida na tua eterna imensidão.


*****
És o eterno sobrevivente do cosmos.
Atrais e recolhes as estrelas cansadas de brilharem no manto da noite.
E, nesta manhã, encostada à brancura da minha janela, olho a serena força com que reconstróis a vida.
Reconstróis as rochas que banhas e o areal que para ti se estende.
Recrias as manchas de cor diversas que fazes bailar.
Reinventas o som, ora manso, ora feroz das tuas águas.


E eu sou sobrevivente, também.
Mas inerte e atónita.
Como os barcos cuja faina foi
bruscamente interrompida
e no areal ficaram sem jeito nem reconstrução.


À espera.

Vesti[te][me]...


Aqui neste [meu] silêncio
vesti[me] no teu corpo
com os meus versos
fiz o [in]verso…
Tatuei[me] com [n]os teus
e em águas profundas mergulhei
trouxe flores do mar
para teus cabelos
e teu olhar enfeitar…
E na noite cobrir[te] num manto
proteger[te] e acalentar[te] o frio
para fazer[te] feliz
nas asas das canções
que [te] fiz…