quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cenas beckettianas à espera do resgate



1
Almeida Santos, conselheiro de Estado, desmente Bagão Félix, conselheiro de Estado, também desmentido por Carlos César, conselheiro de Estado. Tudo porque Bagão desmentiu José Sócrates. Verdade além dos Pirinéus não coincide com a verdade de três responsáveis do Partido Socialista. Se todos forem falando de acordo com o partido, não há mesmo dignidade para o órgão.

2
Já pisámos o risco do funcionamento regular das instituições. A não ser que o normal seja haver anormais. Glosando Almeida Santos de outras eras: não quero viver num manicómio em autogestão!

3
Seria ridículo que o Presidente pedisse ao PGR para fazer mais um inquérito sobre a fuga de informação. Ainda haveria fuga sobre a fuga... O burlesco seria divertido, caso o fundo não fosse trágico! Dirão os especialistas em "marketing": mais uma vez, Sócrates marcou a agenda!

4
Depois do pronunciamento de Carlos Santos Ferreira, ontem, hoje vai pronunciar-se Ricardo Salgado. Perante Judite de Sousa. Todos os dias, mais uma consulta nos sucessivos divã do regime.

5
Francisco Assis já o admite: "Se porventura a situação se degradar a ponto de termos que encontrar uma solução de ajuda externa é evidente que o deveremos sempre fazer na base de um consenso". Um problema de simples bom senso.

6
O senhor banqueiro Salgado não tem nenhuma legitimidade para invocar a "unidade nacional" ou o "projecto europeu". Tem apenas a obrigação patriótica de cumprir o seu dever como banqueiro. O poder da facção lusa da geofinança está subordinado ao poder político. E ele já demonstrou como não tem legitimidade para aí nos dar sentenças. Nem invocando o estatuto de arrependido.

7
Porque sou liberal, quero a política liberta da pressão do banqueirismo. E é também como liberal que invoco o legado de Mouzinho da Silveira, o principal dos criadores do Estado português contemporâneo. Pelo menos na limpeza das receitas e das despesas. Se continuarmos entre empresas de economia mística, continuaremos a nacionalizar os prejuízos e a privatizar os lucros.

8
 O vasquinho, na “Canção de Lisboa”, também dizia: "chapéus, há muitos". Mas só para os "palermas". Não é na 25ª hora que alguns conseguem sacudir a água do capote. Não é dignidade do trabalho que nos agrava o défice. São antes os juros da dívida e as PPPs, as contratadas e as clandestinas. Não estou disposto a continuar a pagar sem a necessária democracia fiscal. Também não quero ser protectorado dos banqueiros dos sucessivos regimes.

9
Esta polémica está a colocar em risco o normal funcionamento das instituições e sugere que se sigam os ex-presidentes da República, que têm tido “uma voz superior a estes partidarismos e a este facciosismo”. Estamos a pisar as raias do funcionamento regular das instituições e a pisá-las, sobretudo, num órgão que devia dar o exemplo”. Citando A. Santos, “isto não pode ser um manicómio em auto-gestão” (JAM, à Renascença).

10
Do Bloco ao Bloqueio: "Nunca houve tantos candidatos a secretário-geral do PS como desta vez: foram quatro e normalmente era um só...Se não quiserem fazer coligações com o PS por ser liderado por José Sócrates, quem bloqueará o país será a oposição. Quem bloquear assumirá as responsabilidades"

11
Finalmente, falou o socialista francês, director do FMI e eventual candidato à presidência em Paris, contra a direita. O camarada de Sócrates é claro: "o problema não é tanto a dívida pública como o de financiamento de bancos e a dívida privada, o que o tornam um caso completamente diferente da Grécia". Os salgados que não nos dêem lições, ao povo, e as PPPs que se amanhem...

12
 Como é que eu posso acreditar em banqueiros que, ainda há poucos meses, defendiam o betão pelo betão e tratavam a classe política como meros empregados, enquanto nada diziam de mostrengos que agora são os simples contribuintes a terem que pagar, como no caso de suprapartidos do bloqueio central, bem expressos pelo modelo BPN, onde, à esquerda e à direita, se recrutavam ex-ministros para que a procissão da roubalheira criminosa nos sugasse, repetindo o modelo Alves dos Reis e dos seus impolutos administradores, feitos inocentes inocentes úteis, de acordo com os velhos manuais da psicologia da burla!

13
O problema português não o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário...

14
Votarei no político que venha ao espaço público declarar: o problema português não é o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário... Logo, investiguem-me! Aquele que apanhar na minha vida uma só cedência à roubalheira, fique certo que imediatamente me demitirei!


15
Apaziguamento, concórdia, acalmação, união sagrada, ministério nacional, concentração, bloco central, convergência alargada, salvação nacional, salvação pública, coligação. Mas apesar de tanto fim e tanto inferno de boas intenções, agora vai tudo, vou sozinho às eleições e depois do cheque endossado, negócio arrumado.

16
O problema político está na desconstrução da linguagem teológica sobre a unidade na diversidade, entre a santíssima trindade laica e a ira divina da ajuda externa que é coisa bem mais prosaica sobre o paga o que deves ao ritmo de "ultimatum" já sem "heróis do mar"...

17
Não foi por alguns, foi só por ele que ele pensava que era o todo e todos tiveram de suspendar a política e voltar à casa, com oikos despote

18
Como disse ontem Carrilho, propaganda hoje é contar-se uma história simples, fingindo que a realidade é ficção e levá-la até à exaustão, com um herói e um vilão, a salvação e o inferno. Digo eu: vivemos em messianismo de telenovela e o povo pode não querer ser autor e continuar como simples auditor. Por mim, prefiro desconstruir, para que venha a verdade em cada um

19
Os contadores de história ainda mandam, entre PECs e FMIs, ao ritmo dos televangelistas, reinventando o "Gegenreich", o "Anticristo" e a própria antinação, como os derradeiros salvadores deste orgulhosamente sós de má memória. Espero que os socialistas simples não se misturem com este nacionalismo de opereta.

20
Leio mais um comunicado, logo certificado pelo outro, porque antes de o mesmo ser emitido foi negociada a confirmação. Podemos também certificar que um quarto de hora antes do presente situacionismo morrer ele ainda estava bem vivinho com muitos mouros na costa e alguns discursos daquilo que outrora se designou como brigada do reumático.

21
Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Deputado Jaime Gama, terminou o seu tempo. Últimas palavras, depois de anunciar que não seria candidato na próxima legislatura. Ou o criador reconhecendo o que é efectivamente a sua criatura. Bons foram os discursos de Mota Amaral e de Francisco Assis. Jorge Lacão continuou bem abaixo, ao nível da malhação governamentalista.

22
Depois dos banqueiros, parece que chegou a vez de Merkel... Será que querem mesmo procurar novos feitores?

23
Fim do princípio. Depois do sinal de Lacão, Teixeira dos Santos reconhece que se vai pedir ajuda externa. Sócrates faz comunicação ao país às 20 horas.

24
FEEF/FMI, a coligação vencedora, pré-eleitoral.

25
O que eu disse não foi aquilo que vocês ouviram do que eu disse, eu sempre disse tudo aquilo que não me impede de dizer aquilo que me apeteça dizer. Infelizmente, ainda há quem pense que possa dizer alguma palavra em que possamos confiar!

26
O velho partido que nos trouxe o FMI por duas vezes, chegou à conclusão que não há duas sem três. Aliás o director do FMI é um tal de Strauss Kahn, por acaso camarada da Internacional Socialista. Pode ser um argumento que o nosso JSPS use em seu favor...

 27
A teoria mais inspiradora que eu conheço tem a ver com o mexilhão, embora esteja momentaneamente suspensa a apanha dos bivalves, para que o mar enrole na areia e dado que as ondas do mar são brancas e no centro são amarelas, prós coitadinhos dos que nasceram e votaram no vira-o-disco-e-toca-o-mesmo

28
Portugal já entrou na era pós-gâmica da história, mas sem trazermos canela nem fazermos cristãos. Ficámo-nos pelo Cabo das Tormentas, levámos nas trombas do Adamastor e corremos o risco de afundamento se passarmos até diante do Bojador...pesada é a pedra desta jangada, com tantos náufragos famintos!

‎29
Julgo que nunca tivemos muito bom senso. E em vez de ter ou estar era melhor o ser...

30
"Alors, on y va?"..."Allons-y." Diz o Vladimir para o Estragon no "À Espera de Godot". Mas afinal "Ils ne bougent pas." Está tudo no Samuel Beckett. Na peça publicada poucos meses depois de eu ter nascido.

‎31
Depois desta da TVI, consta que a Prisa e o Miguel Paes Amaral já encetaram contactos com a Manuela Moura Guedes para o imediato regresso à estação, dado que foi essa a condição imposta por Henrique Medina Carreira para a entrevista em que explica como não aceitou o convite de Sócrates para suceder a Teixeira dos Santos.

32
Hoje é o fim do Sócrates II. Mas já houve um Sócrates I e é do povo que depende haver um novo heterónimo, tipo Sócrates III, embora ele possa voltar mesmo com outro nome e com outro partido. Preferia vida nova.

33
Sim, sempre o problema da pecuária...

 34
Tenho outra solução: um Portugal feito de "portugueses à solta", em vez de um Estadão em soltura, ou absoluto, sobretudo para gáudio das empresas de regime e a casta bancoburocrática que mantêm estas sucessivas ditaduras da incompetência, dominadas por uma classe política de bonzos, animando jogos florais de endireitas e canhotos...

35
O mal a que chegámos vem da empregomania, do carreirismo cobarde e de órgãos inventados para que se finja o cumprimento de funções.

36
Por outras palavras, os empresários devem apenas ser empresários. Em política, nem sentenças!

37
O "Pingo Doce" anuncia que vai investir em agricultura (Imaginação criadora, para responder a um grupo que foi o principal beneficário deste modelo pós-revolucionário de socialismo de consumo).

38
Não são apenas os investidores que têm direito a ser bem remunerados. Sem dignidade do trablaho não há justiça, palavras que ASS nunca usou.

39
Porque a maior fuga que se nota de Portugal não é de capitais. É de gente, de pessoas concretas, à procura de liberdade

40
Hoje, alguma coisa de novo começa a mexer esta carcaça de conservadores do que está que nem sequer são conservadores do que deve ser

41
Declarações de há minutos de alguém do círculo íntimo: "sempre cumprimos aquilo que prometemos; não pedimos ajuda externa que isso só retrógados anti-europeístas é que não assumem; com efeito, a Europa não é estrangeiros, segundo os tratados e a nossa constituição; e assistência financeira está no âmbito da nossa coerente defesa do Estado Social".

42
Sócrates cumpre sempre aquilo que diz: «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI». A 20 de Março de 2011. Eu não lhe li os lábios. Confirmo a lábia.


43
Dizem que a telenovela vai dar os últimos episódios da chamada "Espírito Indomável". Parece que agora o vilão já está definitivamente em fuga. Mas pode haver reviravoltas. Vou ver que amanhã é só futebol, com a assistência financeira dos que vão agora pedir assistência financeira.


44
Dizem que Sócrates vai suspender a liderança do PS, assumindo a plenitude do agir patrioticamente. Só volta no dia 1 de Junho, já com a assistência rascunhada. Também consta que Cavaco vai designar um condomínio directivo para a negociação. Para além de Sócrates, Carlos Carvalhas, Manuela Ferreira Leite e Medina Carreira.

45
"Um pedido de assistência financeira...que lamento...mas...me empenharei com toda a minha determinação". Não sabia que em Bruxelas havia prego, penhores, ou uma casa de crédito popular, como havia na velha Caixa...

46
Depois do Vladimir, fala o Estragon. Para haver diálogo, tem que haver lugares comuns (os "loci" ou "topoi" da velha dialéctica que devia ser sempre o método da democracia). Continuaremos à espera. Preferia fazê-lo por D. Sebastião.

47
"As lideranças que vão estar no congresso são as mesmas que querem integrar as próximas listas e estas são feitas por quem anda à volta do líder e de José Sócrates". "Os que estão a aguardar apoio para uma candidatura e que a querem até vão apoiá-lo [Sócrates] nos próximos tempos". Pelo menos até serem conhecidos os resultados das legislativas, nas quais Sócrates será recandidato a primeiro-ministro.

48
A única coisa que a classe política dos náufragos discute: qual o meu lugar na lista e quantos é que vamos meter. Porque a coisa está mesmo preta neste tem-te não caias... Telefona ao Relvas, Manel! E não te esqueças de recordar ao Renato Sampaio aquele belo almoço com o Sócrates. E tu, Paulinho, marca lá na agenda a feira da próxima semana...

49
Ser da classe política ou independente à espera de um convite é a grande azáfama de cerca de cinco mil portugueses entre os capitaleiros da sociedade de corte e os anjos da província que querem bilhete para uma adequada queda. Tudo em nome da defesa do quadrado de muitas vidinhas de subpolíticos profissionais pouco dados ao conselho antigo: vale mais torceres do que quebrares, tu não sabes fazer mais nada!
“Reflecte em macro o que sente: corpos, risos, choros, dores, luzes, sombras, texturas e matérias, fazendo de todos uma só composição e revelando toda diversidade que encontra em imagens. Nascido em São Paulo, formado em design, por presságio escolheu a fotografia como afecto e enamora a arte desde 2001." É assim que Fabio Stachi se apresenta, mas melhor é ver as suas fotos.
fabio, fotografia, stachi
© Fabio Stachi.
O gosto pela fotografia vem de criança e, com a Canon analógica que comprou na adolescência, fotografava tudo à sua volta. O primeiro trabalho – um catálogo de moda - surgiu aos 21 anos. Três anos depois, Fabio e a namorada, Patrícia Costa - que é também a musa protagonista de grande parte dos seus trabalhos - gosta de explorar limites e lugares abandonados no decorrer do processo criativo. Atrai-os a sensação de fotografar num lugar com história, que tenha já sido palco de outras pessoas e vidas. Nestes espaços, Fabio nunca utiliza luz artificial, apenas a natural, e não limpa chão nem paredes. Um dos trabalhos mais tensos que fizeram teve como cenário o manicómio em Brodowski, no interior de São Paulo. Aí chegaram mesmo a perder-se, no escuro, sem conseguir encontrar a saída.
Patrícia, psicóloga e apaixonada pelo mundo da fotografia (e pelo fotógrafo) não se incomoda com os cenários sujos. Com a missão de unir mente, corpo e coração, gosta de provocar - a si própria e aos outros - com imagens e palavras. Para Fabio, ela é “mais de metade do meu trabalho. Ela enfrenta, gosta, se empolga, não tem erro. Se eu falar para ela deitar num chão imundo com um centímetro de poeira, ela vai. Posso contar com ela para o que for. Acaba ficando um trabalho sem restrições. Não é qualquer modelo que faz isso.”
fabio, fotografia, stachi
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Em primeiro lugar, nasce o conceito; depois, a procura do melhor local e modelo para o ensaio; por último, a encenação. Nesse momento, dependendo da luz, das condições atmosféricas e mesmo do estado emocional dos envolvidos, tudo pode mudar. O resultado é, normalmente, um irresistível e apaixonante contraste entre a sedução provocadora de Patrícia – que ela diz ser absolutamente acidental - e os cenários caóticos captados pela objectiva de Fabio. O foco: as emoções humanas; a procura constante pelo lado intimista, expressionista, psicológico, sem a preocupação com regras ou conceitos estéticos. A missão não é tirar fotografias bonitas; o objectivo é mexer com os sentimentos de quem vê. Missão cumprida.
fabio, fotografia, stachi
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terça-feira, 12 de julho de 2011

Até que a luz nos resgate


Vivemos dentro de um pesadelo antigo
sonhado por mentes perversas.
Uma teia disforme e negra
tecida com fios de sangue e escuridão.
Vivemos no ventre tumular de uma mentira
que nos suga a alma mirrada
e nos arrasta, em hipnótico transe,
até ao centro profano do labirinto.

Cativos do pecado e da iludida glória
de estranhos deuses de aluguer,
batemos os trilhos enferrujados da sombra
onde toda a esperança se afunda
num disforme gemido de poeira e ruínas.
Tudo aquilo que aprendemos,
e que nunca trouxe consolo nem alivio,
afoga-se agora no coração estagnado da lama
e nas pontes que desabam na boca do abismo.

De olhos cerrados, dormimos este sono falso,
sonhamos a angústia deste exílio decadente,
numa cega peregrinação pelo colapso da fé,
até à chama extinta da encruzilhada,
onde, em resignado silêncio, uma voz esquecida
entoa a melodia aprisionada das manhãs;
farol de esperança que nos há-de guiar
para fora desta tumba sombria,
quando a noite se devorar a si própria,
num agonizante estertor de espanto,
e, rasgando a mortalha de trevas,
a luz do novo dia nos vier resgatar.

Até que a luz nos resgate


Vivemos dentro de um pesadelo antigo
sonhado por mentes perversas.
Uma teia disforme e negra
tecida com fios de sangue e escuridão.
Vivemos no ventre tumular de uma mentira
que nos suga a alma mirrada
e nos arrasta, em hipnótico transe,
até ao centro profano do labirinto.

Cativos do pecado e da iludida glória
de estranhos deuses de aluguer,
batemos os trilhos enferrujados da sombra
onde toda a esperança se afunda
num disforme gemido de poeira e ruínas.
Tudo aquilo que aprendemos,
e que nunca trouxe consolo nem alivio,
afoga-se agora no coração estagnado da lama
e nas pontes que desabam na boca do abismo.

De olhos cerrados, dormimos este sono falso,
sonhamos a angústia deste exílio decadente,
numa cega peregrinação pelo colapso da fé,
até à chama extinta da encruzilhada,
onde, em resignado silêncio, uma voz esquecida
entoa a melodia aprisionada das manhãs;
farol de esperança que nos há-de guiar
para fora desta tumba sombria,
quando a noite se devorar a si própria,
num agonizante estertor de espanto,
e, rasgando a mortalha de trevas,
a luz do novo dia nos vier resgatar.

Lenda do cavaleiro perdido


Dobrando as falésias brancas
de um tempo que se esgotou
num círculo de crepúsculos encandeados
um cavaleiro sem rumo,
montado no dorso da distância,
erra por entre as vastidões de névoa
procurando um caminho que não existe.
Ao longo das margens perdidas
de uma terra de ninguém,
apressa seu corcel exausto
com a pressa de chegar ainda
a um futuro para sempre adiado.

A saliva ensanguentada das marés
tingindo as chagas de um areal obscuro
empurra-o para um labirinto de dunas
onde o canto lamurioso das aves do poente,
traçando estranhos presságios no horizonte,
anuncia a impossibilidade de um prometido retorno.
A manhã fecha-se,
por entre sombras e miragens,
ferida pela ausência do sol
e o encolher de ombros dos deuses,
ocultando todos os caminhos
ao cavaleiro que cavalga sem destino
no perpétuo e cerrado nevoeiro
onde eternamente se perdeu
sem encontrar ventos favoráveis.

Caminhos cercados


Uma alvorada de sinos decota o silêncio
pasmado no sangue envidraçado das manhãs.
Nos alpendres arruinados de uma divindade cega
o unicórnio negro tenta romper
o círculo mórbido do betão a céu aberto
esgravatando com os cascos em ferida
nos recantos de pedra de um horizonte selado.

Nenhum bosque verdejante cintila
na melancolia obscura que cerca a paisagem
onde o fio de baba do destino se esgota
no girar monótono das pás que degolam o vento.

É demasiado tarde para refazer o caminho.


O unicórnio negro atravessa a bruma
seguindo um rasto de cinzas na terra batida;
exalando um longo e atroz lamento
no coração do gelo que tinge o céu turvo
rente às margens onde se afogaram todos os sonhos.

É demasiado tarde para escolher outro caminho.

Restolho


Acordo como se nuca tivesse sido noite,
na manhã que esconde todas as sombras,
gritando teu nome pelos corredores vazios
com a voz que resgato ao pó das gavetas.
Pergunto por ti às horas que passam
fingindo não saber que é demasiado tarde
e abro as janelas ao coração inquieto
buscando teu rosto num solstício que não chega.
Com sílabas antigas refaço os mesmos versos
onde te tentei prender, na teia branca do poema,
e lentamente morro de novo na luz puída
que enreda o contorno sombrio da folha.
Erro por entre as dunas estéreis da estrofe
nos lugares perdidos onde nunca estás
invocando as palavras que ficaram por dizer
e que se desfazem na combustão dos parágrafos.
Sacrifico todos os sonhos que não sonhei
às musas de um futuro que não existe
tentando ressuscitar à memória das cinzas
as manhãs que me sussurraste no peito,
mas, aquilo que sobra do poema,
no restolho das minhas mãos vazias,
é apenas e só
a metáfora fria da tua prolongada ausência.

Nas teias da luz *


Com um beijo selas-me a boca
e me impedes de respirar.
Nada faço para me libertar desse feitiço
e, de bruços, deixo-me afogar
na ondulação morna dos teus lábios.

Com um sorriso perfuras-me o olhar
e me impedes de contemplar as estrelas.
Aceito essa cegueira súbita
mesmo sabendo que jamais voltarei a ver.

Com um suspiro rasgas-me o peito
e devassas todo o meu interior,
mas já nada importa, agora
que o leque aberto do teu corpo
me promete a libertação de todos os medos
e uma nova lâmpada se acende
na bruma desfeita dos meus sonhos solitários.
Notas rápidas

1. FÁBULA BUFA (Fabula Buffa), a partir de Dario Fo, com Ciro Cesarano e Fabio GORGOLINI, e a colaboração artística de Carlo Boso.

Inauguração em grande da 28ª edição do Festival de Teatro de Almada, com a apresentação de ”Fábula Bufa”, a partir de um belíssimo texto de Dario Fo, que recria, em termos de actualidade, a estrutura cénica da “Commedie dell’Arte”. Dois excelentes actores, Ciro Cesarano e Fabio Gorgolini, que contaram com a colaboração artística de Carlo Boso, formado no Piccolo Teatro di Milano, onde trabalhou com Peppino de Filippo, Giorgio Strehler e Ferruccio Soleri, e encenou mais de quarenta obras. Boso foi director do Carnaval de Veneza entre 1983 e 1994 e dirigiu companhias em Veneza, Milão e Treviso. Em 2004, fundou nos arredores de Paris, nos estúdios criados em 1904 por Charles Pathé, a Académie Internationale des Arts du Spectacle. São dele estas palavras sobre “Fábula Bufa”: “quisemos dar vida a uma forma espectacular destinada a acordar a esperança numa sociedade enfraquecida por um vazio existencial e relembrar, ainda assim, que o teatro, sob todas as suas formas, mesmo as mais burlescas, permanece uma arma poderosa”.
O espectáculo, que conta apenas com dois actores em cena, recria um burlesco de enganos onde um cego e um paralítico invocam o milagre da cura, para depois se revoltarem contra ela, “pois assim terão de trabalhar” e ninguém lhes dá esmolas. Jesus é evocado na cruz e vilipendiado pelos pedintes, mas é dele a última palavra de esperança numa sociedade nada pacífica, mas onde o lugar do actor e do cómico permanece inalterável e essencial para manter o alento do cidadão comum e lhe dar o conforto de uma alegria.
Segundo a documentação do Festival, “Ciro Cesarano e Fabio Gorgolini, formados por Carlo Boso na sua Escola de Montreuil e licenciados em História do Teatro pela Universidade de Bolonha, criaram em Paris, em 2006, a companhia Teatro Picaro com o objectivo de encontrar uma linguagem teatral capaz de conciliar a herança tradicional com as temáticas contemporâneas na concretização de um teatro simultaneamente popular, social, burlesco e poético”.  Conseguem-no plenamente com um trabalho de altíssima qualidade, quer ao nível da palavra, quer no do gesto, da pantomima ou da acrobacia.
Um espectáculo para recordar e que introduziu da melhor forma o tema central da edição deste ano do Festival de Teatro de Almada, que presta homenagem à “Commedie dell’ Arte”-


2. SANTA JOANA DOS MATADOUROS, de Bertolt Brecht, com encenação de Bernard Sobel Colaboração artística de Francis Seleck e Eric Castex

Bernard Sobel, encenador francês de créditos firmados, regressou ao Festival de Almada para dirigir um espectáculo com interpretação de alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema e alunos recém-formados da ACT – Escola de Actores. Uma experiencia inédita e particularmente sugestiva. Creio que não inteiramente lograda, mas ainda assim muito estimulante, tanto mais que deu a conhecer uma nova geração de aspirantes a actores portugueses, onde se vislumbra muita qualidade para futuros voos.
Brecht é um dramaturgo genial, criador de um teatro didáctico de intenções declaradamente comunistas, mas que ultrapassa esse circunstancialismo histórico com a grandeza da sua palavra, vigorosa e poética, e pela clareza das suas intrigas, que procuram desmontar jogos de poder e de interesses criados. As lutas de classe entre os poderosos e os explorados do mundo podem ser acusadas de algum esquematismo, mas são fascinantes de acompanhar. “Santa Joana dos Matadouros” não será das suas obras-primas (“Mãe Coragem e seus filhos”, “O Círculo de Giz Caucasiano, “A Alma Boa de Tzé Chuan”, “A Mãe” ou “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”), mas é muito interessante, sobretudo por trazer para o palco um tema violento e agressivo como o da exploração do comércio da carne, numa Chicago em plena crise de 1929.
Acontece que a forma escolhida por Bernard Sobel para encenar este espectáculo, um longo e largo corredor no meio de duas bancadas de espectadores, por onde evoluem duas dezenas de actores, que vão trocando de papéis, não terá sido a melhor para clarificar as intenções da peça. Mas revela-se estimulante como experiência, e revela um bom conjunto de promessas.
Santa Joana é uma jovem que ingressou no Exército de Salvação para aliviar a miséria dos trabalhadores dos matadouros de Chicago, e que acaba vítima das contradições de um capitalismo selvagem que só olha ao lucro.
Citando fontes do Festival, Bernard Sobel (n. 1935) é o criador do Teatro de Gennevilliers, uma cidade da periferia de Paris, onde desenvolveu a sua acção de director e encenador entre 1963 e 2006. Foi em 1963, depois de fazer a sua formação no Berliner Ensemble, então dirigido por Helene Weigel, viúva de Brecht, que Sobel se instalou em Gennevilliers, onde começou por fundar o Ensemble Théâtral de Gennevilliers (ETG), um grupo de jovens actores e investigadores que adoptou um estatuto amador, cuja intenção era contribuir para o nascimento de uma forma teatral diferente das que existiam nessa época. Entre os autores que apresentou, contam-se Vichnevski, Koplov, Volokhov, Erdman, Heiner Müller, Kleist, Schiller, Lessing, Lenz, Heinrich Mann, Grabbe e, naturalmente, Brecht. Mas é também um especialista de Molière, de quem encenou várias obras, e o seu repertório inclui muitos outros autores clássicos e modernos, como Eurípedes, Marlowe ou Sarah Kane. Após deixar a direcção do Teatro de Gennevilliers, por ter atingido o limite de idade, Sobel fundou a sua própria companhia, tendo dirigido textos de Olecha, Mayenburg e Kleist.

Intérpretes: Alice Medeiros, Ana Cris, Bartolomeu Paes, Carlos Gomes, Catarina Rosa, Daniel Fialho, Diogo Tavares, Eduardo Breda, Elisabete Pedreira, Joana Campos, Joana de Verona, José Mata, José Redondo, Mafalda Jara, Marco Trindade, Rita Miranda, Sara Reis, Sofia Vitória, Tomás Tojo, Vera Barreto; Tradução: Manuel Resende; Cenário: Pierre Setbon, Guilherme Frazão; Figurinos: Mina Ly; Música e canções Olivier Bernaux; Desenho de luz: Guilherme Frazão; Som: Bernard Vallery; Fotografia: Rui Carlos Mateus; Ass. de figurinos: Bárbara Pinto, Inês Pereira, Lydia Neto; Ass. de dramaturgia: Miguel Curiel, Nuno Pontes; Duração: 2H40.


3. MOI, RODIN (Eu, Rodin), de Patrick Roegiers, com encenação de Mihai Maniutiu. Criação do Teatro Nacional Radu Stanca Sibiu (Roménia).

As relações entre Rodin e a sua discípula e amante Camille Claudel estiveram na origem de “A Paixão de Camille Claudel”, um belíssimo filme de Bruno Nuytten, com Gérard Depardieu e Isabelle Adjani. Soube agora que, em 2002, o Museu Guggenheim de Bilbau convidou o coreógrafo belga Marc Bogaerts para criar uma performance com interpretação de Esther Cloet. Um ano depois, o dramaturgo francês Patrick Roegiers juntou-se ao projecto, escrevendo o monólogo “Eu, Rodin”. A fusão da dança com as palavras deu-se no Teatro Nacional Radu Stanca de Sibiu, sob a direcção do encenador romeno Mihai Maniutiu, com interpretação de Constantin Chiriac.
Nada de mais decepcionante. A peça é um monólogo sem qualquer dramaticidade. A encenação é antiquada, obsoleta, de um gosto estético deprimente. A representação tonitruante e o bailado que a acompanha um apêndice sem graça nem convicção. “Eu, Rodin” afirma-se “um espectáculo sobre o amor e o poder, sobre a criação e a destruição, que coloca em cena, e em confronto, a escultora Camille Claudel (1864-1943) e o seu mestre e paixão, o escultor Auguste Rodin (1840-1917). Trata-se de uma criação em que Camille “dança” a sua relação com Rodin, e em que este “fala” através de um monólogo. Infelizmente, para mim, não passou de uma enorme maçada apesar de só durar uma hora.

Intérpretes: Constantin Chiriac, Esther Cloet; Tradução: Anca Maniutiu; Cenário: Iuliana Vîlsan, Mihai Maniutiu; Figurinos: Iuliana Vîlsan; Coreografia: Marc Bogaerts; Língua: Romeno, legendado em português; Duração: 1H00.


4. THE JEW (O Judeu), a partir de “The Jew of Malta”, de Christopher Marlowe; criação colectiva de Mundo Perfeito | Dood Paard | Maria Matos Teatro Municipal (Lisboa, Amesterdão).

Deve ser uma heresia o que vou dizer, dado que muitos consideram “O Judeu de Malta” “uma das obras-primas da dramaturgia universal”, Mas a verdade é que acho esta peça de um racismo aviltante, de um anti semitismo sem desculpa, só comparável ao “Judeu Juss”, filme aberrante do período nazi. Christopher Marlowe (1564-1593) é um dos grandes dramaturgos do período isabelino, contemporâneo de Shakespeare. Pode ter sido um mestre no sec. XVI, mas encenar esta peça no sec. XXI não me parece muito sensato. Mesmo que a mesma tente actualizar a mensagem (o que se calhar ainda a torna mais odiosa).
Retirando este aspecto, a encenação do colectivo é magnífica com um primeiro tempo em que, à vista dos espectadores, se constrói todo o cenário, sobrecarregando-o de elementos dispersos até à exaustão, para num segundo momento, se assistir à sua desagregação. Numa peça de mentiras e embustes, a relação entre o texto e a sua encenação é perfeita, ainda que à primeira vista o possa não parecer. Os actores são excelentes, quase todos portugueses a debitarem um texto inglês. Fica o senão, essencial, do significado racista desta história de ganância e vingança que se situa em Malta, ponto de cruzamento de religiões, de culturas e entreposto de rotas de comércio.
Parece ter estado na origem de “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare.
Socorrendo-me das notas do Festival, “Mundo Perfeito”, companhia que nasceu em 2003, tem apresentado o seu trabalho na Europa, Médio Oriente e América do Sul. Além de promover o trabalho artístico de Tiago Rodrigues, que partilha a direcção com Magda Bizarro, esta companhia tem apostado na nova dramaturgia, na criação colectiva e nas colaborações entre artistas portugueses e internacionais. Quanto ao grupo “Dood Paard” (em português, “Cavalo Morto”) foi fundado em Amesterdão em 1993. O seu trabalho, frequentemente politizado e de tom provocatório, inclui dramaturgos como Ésquilo, Shakespeare, Oscar Wilde, Edward Albee, Arthur Schnitzler ou Thomas Bernhard. Sem director, o trabalho colectivo e a autonomia são as principais características deste grupo.

Actores e criadores do espectáculo: Carla Maciel, Gillis Biesheuvel, Gonçalo Waddington, Kuno Bakker, Manja Topper, Tiago Rodrigues e ainda os técnicos André Calado, Julian Maiwald, René Rood; Adaptação: Paul Evans; Tradução: Joana Frazão; Comunicação: Raymond Querido; Produção; Dood Paard Marten Oosthoek; Produção: Mundo Perfeito Magda Bizarro; Residência artística: Espaço Alkantara; Língua: Inglês, legendado em português; Duração: 2H00.

com os olhos talhados no horizonte


com os olhos talhados no horizonte foram regaço colo e abraço. de quantas vidas necessitam os seres para se encontrarem no azul de si?

sabes, há na geografia mental em que me deito e acordo, uma impossibilidade de recomeço. aqui, neste espaço onde o negro é cor, e as minhas asas se soltam por vezes dos entremezes realistas de alegorias vicentinas, ouço, numa escala de fruir silêncios, notas de um tempo de diáspora
sem regresso
(choro cada minuto que de ti me faz ausente);
é aqui, algures num lugar piramidal - um cume de Dante, uma ponta de um iceberg - que me vejo e me abraço, díptica, letra-a-letra, epigrafada a baixo-relevo, sendo, a um só tempo,
ilha e nuvem
sobrepostas
que se tocam em miragem do infinito (e recordo a sabedoria de Raúl quando dizia que todas as ilhas têm uma nuvem só sua. tu és, por conseguinte, a minha ilha e a nuvem que paira sobre ela. ilha onde, insulada, sou mais eu, e, por consequência mais tua).

nesta idiossincrasia tão minha, existe, creio, uma estranha forma de amar, uma estranha intimidade que nos acolhe a cada final de tarde em que te espero - associo-te bíblica e bibliográfica aos ruídos da cidade que não me cabem nos olhos, aos sinos replicados a rebate, que me apelam para a reza do terço (o Maio tão perto), aos chilreio de todos os pássaros sadios, aos movimentos audazes de todas as árvores balouçantes ali do átrio, ao vento em afagos alternados de varejo insano e de dulcíssima ternura nos vidros e nos caixilhos da janela, e, por fim, materializo-te no beijo de meus lábios e, ainda ai, aos sabores salgados que adivinho no teu corpo; há uma heterodoxia pulsante que me desvia da candura do poema e me torna mais corporal e substantiva; há ainda no meu texto uma trilogia humana, pagã e divina, que me aflora ao teu nome, consoante e vogal aberta, que soletro vagarosa dentro de mim, e que tento seja, não mais que uma mágica expressiva do quanto me és, no talhe mais lancinante dos gestos
que não teço - somos duas linhas equidistantes de um ponto. paralelas a tender para infinito. não existe? que me importa, acabei de inventar... paralelas que gritam, como trilhos de um comboio
que passa a alta velocidade,

e, todavia tens razão quando me dizes que me aloco aos mais silenciados silêncios,
que me pleonasmo na tua viagem infindável; contemporânea-Penélope fico na praia a fiar rendas ao tempo (e que, como ela, morro devagar no tédio de te esperar de uma viagem sem data determinada ao regresso); por vezes dou-me conta que tenho um prazer quase mórbido de experienciar em mim mesma os opostos. exercito a dor na minha pele e a perspicácia de me exacerbar ao romantismo mais puro sem me deixar tomar das minhas próprias sombras, sem naufragar no turvo dos meus olhos quando te choro. opto, nestes dias infindáveis,
por te chorar
chorando rosas ...

é nestes momentos, com os olhos talhados no horizonte, que se engrandece a minha viagem, monástica, na verdade, em que me resumo a ser leitura, em detalhe, sinóptica forma de mim mesma para que, o melhor que me habita seja o que de melhor, mais sublime, numa outra vida, te possa oferecer,
e me expurgo de tudo o que é acessório,
e cultivo a arte minimalista do ter
e te aguardo nos claustros onde o sol pede licença para acontecer
tu és o meu sol
a razão do meu amanhecer

é quando a meus ouvidos Gabriela (a Llansol, claro) sopra a mensagem de seu infinito saber
"a leitura viva é o sinal dos tempos vivos". e, nesta lúdica reinvenção invento a forma secreta de te dizer o que nunca me foi fácil, no absoluto temor de cair no ridículo exposto de um sentimento...
MÃE
maternidade
(...)
Tão pouca é a vida,
o deslumbrado delírio da vida.

No tear se tecem os fios, o desenho das rendas, a
renda dos dias.
Ignoro quantos,
quantas tardes no fluir da paixão, quanto ouro e
azul na idade das mãos,
que idade no tear das mães.

Foram belas também, no sonho antigo,
passearam entre os lírios,
desatavam a cabeleira e os vestidos,
iam à beira mar.

Envelheceram no ardor dos filhos, no embalo,
distraídas da chuva e das rugas,
do sol já distante.

Pouca é a vida e os filhos crescem,
vão pelas cidades, pelo mundo, outras tardes urdindo,
afastando-se,
distraídos,
parando a loucura no poder de um braço,
no nome de uma mulher,
no trinco de uma porta.
(...)

Universo azul (flores da simbiose)*


-Pulok Pattanayak




Cantá-la-ei na lua undécima, nocturna, suprema,
evaporando ininterruptamente os seixos nocturnos.

Pela sua boca, canto iluminuras, pérolas, guitarras solares.
No odor a cedros, anuncio os seus dedos frágeis,
a sua infinitude;
— cabelos flutuando, boca dançarina,
os botões da Primavera lembrando a “Kreutzer”
(Sonata n.º 9 de Beethoven), “stacatto”, violino e piano, limite puro
— a beleza eclodindo em seus gestos,
discursiva, épica, derramando flores.

Proclamá-la-ei em seu domínio leve,
numa paleta de cores, entre violino e donzela:
um tempo para cantar a sua brancura, ecos da sua harmonia
— odes de água e silêncio.

Amo-a fundamentalmente,
reproduzindo o seu toque, a sua música,
as palavras e o amor (prelúdio de uma fuga).

Amo-a nas tempestades de areia, numa dança de fogo.
Ela, violinista, princesa das águas, alumia a plenitude indecifrada;
eu, poeta que canta o cobalto e as marés,
transcrevo a madrugada
..........para ela, cisne branco, Nereide do silêncio.

Na sua boca converge o sândalo,
como se fosse o espelho do mar e a flor eterna do instante.

Relógios amolecidos ditarão o absoluto,
desvendando a lua incompleta, novíssima, a noite dual.
Beijá-la-ei na ondulação do trigo (a água e os frutos resplandecendo).

Escreverei o tempo novo,
desenharei, nos seus cabelos, pássaros negros.

Dir-lhe-ei os corais, o universo azul, todas as distâncias abolidas,
estrelas marinhas e líquenes.
Segredar-lhe-ei toda a alquimia, perfumes voláteis;
o lume do olhar iluminando o seu rosto velado.

Amo essa mulher, os seus olhos opulentos, elegíacos;
nas suas mãos, perfumes de água,
numa janela veneziana, ela - a própria noite.

Amanhece a sua carne e o seu silêncio.
Adivinho-a em cada pétala,
como se encontrasse o seu nome em cada aroma,
(permanece intacto o seu enigma, a sua boca).

Amo a sua delicadeza, a púrpura que incendeia as coisas.
Beijo o seu olhar;
escrevo-a na penumbra das aves, celebrando a sua música secreta
- o idílio de Siegfried e Brünnhilde -,
violetas submarinas.

Inumeráveis os cantos, os dedos, fragilmente.
O seu nome é tâmara, um nome que não se conhece;
um nome imperecível, coroado de diademas azuis.
Contemplo-a, no seu idioma secreto, na estrutura do amanhecer
(sei que o amor é primordial e antigo).


Cada tempo tem a sua coloração,
numa aprendizagem, nestas cidades,
irrompendo as fronteiras.

Falo a linguagem do mundo, densa e alquímica.
Nesses universos cósmicos, sou múltiplo e diverso.

............Não espalho o meu amor cantante.

....................— Amo-a secretamente.

A taça das tuas mãos

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A taça das tuas mãos

traz-me numa taça
a água fresca do dia,
quando o vento se liquefaz
sob o meu olhar atento,
e o meu corpo é menos carne do que vento
porque minha alma lá dentro não cabia,
excessiva, enorme.


Vá, toca-me ao de leve com tuas mãos
para que a tarde sobre mim se entorne.