quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CAOS


Não sei se rasgo de vez
ou se costuro;
se desmancho tudo
ou se decoro;
se aumento o espaço
ou se levanto o muro.
Desajuste.
Se eu tirar a goma,
a folha entorta
mas se eu a deixar,
é folha morta;
se eu limpar o trilho,
fica liso
mas se deixar ficar, perde-se o brilho.
Um pouco de emoção, um pouco de loucura.
A roda passa, a vida dura
até o dia em que a poesia se desmanche
e de uma vez para sempre a música se canse.
A pedra do chão então se abre ao meio
e vira-se recheio de uma terra em transe.


As Rosas


Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.



"PRIMAVERAS I"


A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: - Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!


Primavera


Primavera gentil dos meus amores,
- Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul, dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!


Este é o Prólogo

Deixaria neste livro

toda a minha alma.

este livro que viu

as paisagens comigo

e viveu horas santas.

Que pena dos livros

que nos enchem as mãos

de rosas e de estrelas

e lentamente passam !

Que tristeza tão funda

é olhar os retábulos

de dores e de penas

que um coração levanta !

Ver passar os espectros

de vida que se apagam,

ver o homem desnudo

em Pégaso sem asas,

ver a vida e a morte,

a síntese do mundo,

que em espaços profundos

se olham e se abraçam.

Um livro de poesias

é o outono morto:

os versos são as folhas

negras em terras brancas,

e a voz que os lê

é o sopro do vento

que lhes incute nos peitos

- entranháveis distâncias.

O poeta é uma árvore

com frutos de tristeza

e com folhas murchas

de chorar o que ama.

O poeta é o médium

da Natureza

que explica sua grandeza

por meio de palavras.

O poeta compreende

todo o incompreensível

e as coisas que se odeiam,

ele, amigas as chamas.

Sabe que as veredas

são todas impossíveis,

e por isso de noite

vai por elas com calma.

Nos livros de versos,

entre rosas de sangue,

vão passando as tristes

e eternas caravanas

que fizeram ao poeta

quando chora nas tardes,

rodeado e cingido

por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura,

mel celeste que emana

de um favo invisível

que as almas fabricam.

Poesia é o impossível

feito possível. Harpa

que tem em vez de cordas

corações e chamas.

Poesia é a vida

que cruzamos com ânsia,

esperando o que leva

sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos

sãos os astros que passam

pelo silêncio mudo

para o reino do Nada,

escrevendo no céu

suas estrofes de prata.

Oh ! que penas tão fundas

e nunca remediadas,

as vozes dolorosas

que os poetas cantam !

Deixaria neste livro

toda a minha alma...

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