terça-feira, 12 de julho de 2011

Restolho


Acordo como se nuca tivesse sido noite,
na manhã que esconde todas as sombras,
gritando teu nome pelos corredores vazios
com a voz que resgato ao pó das gavetas.
Pergunto por ti às horas que passam
fingindo não saber que é demasiado tarde
e abro as janelas ao coração inquieto
buscando teu rosto num solstício que não chega.
Com sílabas antigas refaço os mesmos versos
onde te tentei prender, na teia branca do poema,
e lentamente morro de novo na luz puída
que enreda o contorno sombrio da folha.
Erro por entre as dunas estéreis da estrofe
nos lugares perdidos onde nunca estás
invocando as palavras que ficaram por dizer
e que se desfazem na combustão dos parágrafos.
Sacrifico todos os sonhos que não sonhei
às musas de um futuro que não existe
tentando ressuscitar à memória das cinzas
as manhãs que me sussurraste no peito,
mas, aquilo que sobra do poema,
no restolho das minhas mãos vazias,
é apenas e só
a metáfora fria da tua prolongada ausência.

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