terça-feira, 19 de julho de 2011

O PREDADOR


    Acordara-se em meio à relva úmida, o dia raiando. De um salto apercebe-se seminu, encolhe-se junto a um arbusto, assustado. Como fora parar ali? Corre os olhos e vê o estrago em torno de si, como se ali houvera tido uma luta... tudo destruído. Estava próximo de casa, caminha por entre a mata e entra pelos fundos, direto para seu quarto. Afinal, o que diriam se o vissem naquele estado? Quem havia feito aquilo? Resolve tomar um banho e deixa a água escorrer por seu corpo dolorido e trêmulo...


    Tenta recordar o dia anterior... havia chegado cedo do trabalho, jantara com a família e fora para o escritório apreciar o relógio que seu amigo de infância trouxera do Egito, da tumba de um faraó. Era magnífico, cravejado de rubis e banhado a ouro com uma inscrição egípcia que não conseguira decifrar. Mas e depois? Não lembrara mais nada...

    Pensava em mil possibilidades... teria sido surpreendido por algum gatuno e fugido para a mata? ou algum maníaco teria invadido a casa, lhe dera algum entorpecente e o soltara na mata? O que houvera? Como não lembrava nada? Agora percebia as marcas em seu corpo... Passara o dia entre suposições e pavor. À noite, após o jantar, repete o ritual como na noite anterior, mas agora mais atento.

    A vidraça do escritório deixava transparecer a luz do luar, sentara-se em frente à escrivaninha e observava a lua cheia, sem perceber o tempo correr, até que, subitamente, ouve as badaladas do relógio... blém, blém, blém... falta-lhe o ar, os olhos arregalam-se... vermelhos... ele voltara!

   Em pânico sente o corpo adormecer... já não podia lutar contra ele. A fera salta sobre a mesa e o consome de terror. Abre a janela e corre mata adentro.

    O homem assustado dá lugar à fera que desperta no seu peito pelas badaladas do relógio maldito. Já não pode dominar-se aquele cuja essência verdadeira foi subestimada pela vaidade.

    A fera domina o homem, o instinto selvagem agora despertara para aplacar sua fome, por séculos, adormecida... está à solta o predador...

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