terça-feira, 12 de julho de 2011

com os olhos talhados no horizonte


com os olhos talhados no horizonte foram regaço colo e abraço. de quantas vidas necessitam os seres para se encontrarem no azul de si?

sabes, há na geografia mental em que me deito e acordo, uma impossibilidade de recomeço. aqui, neste espaço onde o negro é cor, e as minhas asas se soltam por vezes dos entremezes realistas de alegorias vicentinas, ouço, numa escala de fruir silêncios, notas de um tempo de diáspora
sem regresso
(choro cada minuto que de ti me faz ausente);
é aqui, algures num lugar piramidal - um cume de Dante, uma ponta de um iceberg - que me vejo e me abraço, díptica, letra-a-letra, epigrafada a baixo-relevo, sendo, a um só tempo,
ilha e nuvem
sobrepostas
que se tocam em miragem do infinito (e recordo a sabedoria de Raúl quando dizia que todas as ilhas têm uma nuvem só sua. tu és, por conseguinte, a minha ilha e a nuvem que paira sobre ela. ilha onde, insulada, sou mais eu, e, por consequência mais tua).

nesta idiossincrasia tão minha, existe, creio, uma estranha forma de amar, uma estranha intimidade que nos acolhe a cada final de tarde em que te espero - associo-te bíblica e bibliográfica aos ruídos da cidade que não me cabem nos olhos, aos sinos replicados a rebate, que me apelam para a reza do terço (o Maio tão perto), aos chilreio de todos os pássaros sadios, aos movimentos audazes de todas as árvores balouçantes ali do átrio, ao vento em afagos alternados de varejo insano e de dulcíssima ternura nos vidros e nos caixilhos da janela, e, por fim, materializo-te no beijo de meus lábios e, ainda ai, aos sabores salgados que adivinho no teu corpo; há uma heterodoxia pulsante que me desvia da candura do poema e me torna mais corporal e substantiva; há ainda no meu texto uma trilogia humana, pagã e divina, que me aflora ao teu nome, consoante e vogal aberta, que soletro vagarosa dentro de mim, e que tento seja, não mais que uma mágica expressiva do quanto me és, no talhe mais lancinante dos gestos
que não teço - somos duas linhas equidistantes de um ponto. paralelas a tender para infinito. não existe? que me importa, acabei de inventar... paralelas que gritam, como trilhos de um comboio
que passa a alta velocidade,

e, todavia tens razão quando me dizes que me aloco aos mais silenciados silêncios,
que me pleonasmo na tua viagem infindável; contemporânea-Penélope fico na praia a fiar rendas ao tempo (e que, como ela, morro devagar no tédio de te esperar de uma viagem sem data determinada ao regresso); por vezes dou-me conta que tenho um prazer quase mórbido de experienciar em mim mesma os opostos. exercito a dor na minha pele e a perspicácia de me exacerbar ao romantismo mais puro sem me deixar tomar das minhas próprias sombras, sem naufragar no turvo dos meus olhos quando te choro. opto, nestes dias infindáveis,
por te chorar
chorando rosas ...

é nestes momentos, com os olhos talhados no horizonte, que se engrandece a minha viagem, monástica, na verdade, em que me resumo a ser leitura, em detalhe, sinóptica forma de mim mesma para que, o melhor que me habita seja o que de melhor, mais sublime, numa outra vida, te possa oferecer,
e me expurgo de tudo o que é acessório,
e cultivo a arte minimalista do ter
e te aguardo nos claustros onde o sol pede licença para acontecer
tu és o meu sol
a razão do meu amanhecer

é quando a meus ouvidos Gabriela (a Llansol, claro) sopra a mensagem de seu infinito saber
"a leitura viva é o sinal dos tempos vivos". e, nesta lúdica reinvenção invento a forma secreta de te dizer o que nunca me foi fácil, no absoluto temor de cair no ridículo exposto de um sentimento...

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