quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cenas beckettianas à espera do resgate



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Almeida Santos, conselheiro de Estado, desmente Bagão Félix, conselheiro de Estado, também desmentido por Carlos César, conselheiro de Estado. Tudo porque Bagão desmentiu José Sócrates. Verdade além dos Pirinéus não coincide com a verdade de três responsáveis do Partido Socialista. Se todos forem falando de acordo com o partido, não há mesmo dignidade para o órgão.

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Já pisámos o risco do funcionamento regular das instituições. A não ser que o normal seja haver anormais. Glosando Almeida Santos de outras eras: não quero viver num manicómio em autogestão!

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Seria ridículo que o Presidente pedisse ao PGR para fazer mais um inquérito sobre a fuga de informação. Ainda haveria fuga sobre a fuga... O burlesco seria divertido, caso o fundo não fosse trágico! Dirão os especialistas em "marketing": mais uma vez, Sócrates marcou a agenda!

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Depois do pronunciamento de Carlos Santos Ferreira, ontem, hoje vai pronunciar-se Ricardo Salgado. Perante Judite de Sousa. Todos os dias, mais uma consulta nos sucessivos divã do regime.

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Francisco Assis já o admite: "Se porventura a situação se degradar a ponto de termos que encontrar uma solução de ajuda externa é evidente que o deveremos sempre fazer na base de um consenso". Um problema de simples bom senso.

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O senhor banqueiro Salgado não tem nenhuma legitimidade para invocar a "unidade nacional" ou o "projecto europeu". Tem apenas a obrigação patriótica de cumprir o seu dever como banqueiro. O poder da facção lusa da geofinança está subordinado ao poder político. E ele já demonstrou como não tem legitimidade para aí nos dar sentenças. Nem invocando o estatuto de arrependido.

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Porque sou liberal, quero a política liberta da pressão do banqueirismo. E é também como liberal que invoco o legado de Mouzinho da Silveira, o principal dos criadores do Estado português contemporâneo. Pelo menos na limpeza das receitas e das despesas. Se continuarmos entre empresas de economia mística, continuaremos a nacionalizar os prejuízos e a privatizar os lucros.

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 O vasquinho, na “Canção de Lisboa”, também dizia: "chapéus, há muitos". Mas só para os "palermas". Não é na 25ª hora que alguns conseguem sacudir a água do capote. Não é dignidade do trabalho que nos agrava o défice. São antes os juros da dívida e as PPPs, as contratadas e as clandestinas. Não estou disposto a continuar a pagar sem a necessária democracia fiscal. Também não quero ser protectorado dos banqueiros dos sucessivos regimes.

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Esta polémica está a colocar em risco o normal funcionamento das instituições e sugere que se sigam os ex-presidentes da República, que têm tido “uma voz superior a estes partidarismos e a este facciosismo”. Estamos a pisar as raias do funcionamento regular das instituições e a pisá-las, sobretudo, num órgão que devia dar o exemplo”. Citando A. Santos, “isto não pode ser um manicómio em auto-gestão” (JAM, à Renascença).

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Do Bloco ao Bloqueio: "Nunca houve tantos candidatos a secretário-geral do PS como desta vez: foram quatro e normalmente era um só...Se não quiserem fazer coligações com o PS por ser liderado por José Sócrates, quem bloqueará o país será a oposição. Quem bloquear assumirá as responsabilidades"

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Finalmente, falou o socialista francês, director do FMI e eventual candidato à presidência em Paris, contra a direita. O camarada de Sócrates é claro: "o problema não é tanto a dívida pública como o de financiamento de bancos e a dívida privada, o que o tornam um caso completamente diferente da Grécia". Os salgados que não nos dêem lições, ao povo, e as PPPs que se amanhem...

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 Como é que eu posso acreditar em banqueiros que, ainda há poucos meses, defendiam o betão pelo betão e tratavam a classe política como meros empregados, enquanto nada diziam de mostrengos que agora são os simples contribuintes a terem que pagar, como no caso de suprapartidos do bloqueio central, bem expressos pelo modelo BPN, onde, à esquerda e à direita, se recrutavam ex-ministros para que a procissão da roubalheira criminosa nos sugasse, repetindo o modelo Alves dos Reis e dos seus impolutos administradores, feitos inocentes inocentes úteis, de acordo com os velhos manuais da psicologia da burla!

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O problema português não o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário...

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Votarei no político que venha ao espaço público declarar: o problema português não é o do esquerdismo ou direitismo, mas dos clássicos burlões cuja lábia nos continua a intrujar! Nem sequer são mafiosos, porque lhes basta a actualização do conto do vigário... Logo, investiguem-me! Aquele que apanhar na minha vida uma só cedência à roubalheira, fique certo que imediatamente me demitirei!


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Apaziguamento, concórdia, acalmação, união sagrada, ministério nacional, concentração, bloco central, convergência alargada, salvação nacional, salvação pública, coligação. Mas apesar de tanto fim e tanto inferno de boas intenções, agora vai tudo, vou sozinho às eleições e depois do cheque endossado, negócio arrumado.

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O problema político está na desconstrução da linguagem teológica sobre a unidade na diversidade, entre a santíssima trindade laica e a ira divina da ajuda externa que é coisa bem mais prosaica sobre o paga o que deves ao ritmo de "ultimatum" já sem "heróis do mar"...

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Não foi por alguns, foi só por ele que ele pensava que era o todo e todos tiveram de suspendar a política e voltar à casa, com oikos despote

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Como disse ontem Carrilho, propaganda hoje é contar-se uma história simples, fingindo que a realidade é ficção e levá-la até à exaustão, com um herói e um vilão, a salvação e o inferno. Digo eu: vivemos em messianismo de telenovela e o povo pode não querer ser autor e continuar como simples auditor. Por mim, prefiro desconstruir, para que venha a verdade em cada um

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Os contadores de história ainda mandam, entre PECs e FMIs, ao ritmo dos televangelistas, reinventando o "Gegenreich", o "Anticristo" e a própria antinação, como os derradeiros salvadores deste orgulhosamente sós de má memória. Espero que os socialistas simples não se misturem com este nacionalismo de opereta.

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Leio mais um comunicado, logo certificado pelo outro, porque antes de o mesmo ser emitido foi negociada a confirmação. Podemos também certificar que um quarto de hora antes do presente situacionismo morrer ele ainda estava bem vivinho com muitos mouros na costa e alguns discursos daquilo que outrora se designou como brigada do reumático.

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Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Deputado Jaime Gama, terminou o seu tempo. Últimas palavras, depois de anunciar que não seria candidato na próxima legislatura. Ou o criador reconhecendo o que é efectivamente a sua criatura. Bons foram os discursos de Mota Amaral e de Francisco Assis. Jorge Lacão continuou bem abaixo, ao nível da malhação governamentalista.

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Depois dos banqueiros, parece que chegou a vez de Merkel... Será que querem mesmo procurar novos feitores?

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Fim do princípio. Depois do sinal de Lacão, Teixeira dos Santos reconhece que se vai pedir ajuda externa. Sócrates faz comunicação ao país às 20 horas.

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FEEF/FMI, a coligação vencedora, pré-eleitoral.

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O que eu disse não foi aquilo que vocês ouviram do que eu disse, eu sempre disse tudo aquilo que não me impede de dizer aquilo que me apeteça dizer. Infelizmente, ainda há quem pense que possa dizer alguma palavra em que possamos confiar!

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O velho partido que nos trouxe o FMI por duas vezes, chegou à conclusão que não há duas sem três. Aliás o director do FMI é um tal de Strauss Kahn, por acaso camarada da Internacional Socialista. Pode ser um argumento que o nosso JSPS use em seu favor...

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A teoria mais inspiradora que eu conheço tem a ver com o mexilhão, embora esteja momentaneamente suspensa a apanha dos bivalves, para que o mar enrole na areia e dado que as ondas do mar são brancas e no centro são amarelas, prós coitadinhos dos que nasceram e votaram no vira-o-disco-e-toca-o-mesmo

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Portugal já entrou na era pós-gâmica da história, mas sem trazermos canela nem fazermos cristãos. Ficámo-nos pelo Cabo das Tormentas, levámos nas trombas do Adamastor e corremos o risco de afundamento se passarmos até diante do Bojador...pesada é a pedra desta jangada, com tantos náufragos famintos!

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Julgo que nunca tivemos muito bom senso. E em vez de ter ou estar era melhor o ser...

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"Alors, on y va?"..."Allons-y." Diz o Vladimir para o Estragon no "À Espera de Godot". Mas afinal "Ils ne bougent pas." Está tudo no Samuel Beckett. Na peça publicada poucos meses depois de eu ter nascido.

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Depois desta da TVI, consta que a Prisa e o Miguel Paes Amaral já encetaram contactos com a Manuela Moura Guedes para o imediato regresso à estação, dado que foi essa a condição imposta por Henrique Medina Carreira para a entrevista em que explica como não aceitou o convite de Sócrates para suceder a Teixeira dos Santos.

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Hoje é o fim do Sócrates II. Mas já houve um Sócrates I e é do povo que depende haver um novo heterónimo, tipo Sócrates III, embora ele possa voltar mesmo com outro nome e com outro partido. Preferia vida nova.

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Sim, sempre o problema da pecuária...

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Tenho outra solução: um Portugal feito de "portugueses à solta", em vez de um Estadão em soltura, ou absoluto, sobretudo para gáudio das empresas de regime e a casta bancoburocrática que mantêm estas sucessivas ditaduras da incompetência, dominadas por uma classe política de bonzos, animando jogos florais de endireitas e canhotos...

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O mal a que chegámos vem da empregomania, do carreirismo cobarde e de órgãos inventados para que se finja o cumprimento de funções.

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Por outras palavras, os empresários devem apenas ser empresários. Em política, nem sentenças!

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O "Pingo Doce" anuncia que vai investir em agricultura (Imaginação criadora, para responder a um grupo que foi o principal beneficário deste modelo pós-revolucionário de socialismo de consumo).

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Não são apenas os investidores que têm direito a ser bem remunerados. Sem dignidade do trablaho não há justiça, palavras que ASS nunca usou.

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Porque a maior fuga que se nota de Portugal não é de capitais. É de gente, de pessoas concretas, à procura de liberdade

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Hoje, alguma coisa de novo começa a mexer esta carcaça de conservadores do que está que nem sequer são conservadores do que deve ser

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Declarações de há minutos de alguém do círculo íntimo: "sempre cumprimos aquilo que prometemos; não pedimos ajuda externa que isso só retrógados anti-europeístas é que não assumem; com efeito, a Europa não é estrangeiros, segundo os tratados e a nossa constituição; e assistência financeira está no âmbito da nossa coerente defesa do Estado Social".

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Sócrates cumpre sempre aquilo que diz: «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI». A 20 de Março de 2011. Eu não lhe li os lábios. Confirmo a lábia.


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Dizem que a telenovela vai dar os últimos episódios da chamada "Espírito Indomável". Parece que agora o vilão já está definitivamente em fuga. Mas pode haver reviravoltas. Vou ver que amanhã é só futebol, com a assistência financeira dos que vão agora pedir assistência financeira.


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Dizem que Sócrates vai suspender a liderança do PS, assumindo a plenitude do agir patrioticamente. Só volta no dia 1 de Junho, já com a assistência rascunhada. Também consta que Cavaco vai designar um condomínio directivo para a negociação. Para além de Sócrates, Carlos Carvalhas, Manuela Ferreira Leite e Medina Carreira.

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"Um pedido de assistência financeira...que lamento...mas...me empenharei com toda a minha determinação". Não sabia que em Bruxelas havia prego, penhores, ou uma casa de crédito popular, como havia na velha Caixa...

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Depois do Vladimir, fala o Estragon. Para haver diálogo, tem que haver lugares comuns (os "loci" ou "topoi" da velha dialéctica que devia ser sempre o método da democracia). Continuaremos à espera. Preferia fazê-lo por D. Sebastião.

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"As lideranças que vão estar no congresso são as mesmas que querem integrar as próximas listas e estas são feitas por quem anda à volta do líder e de José Sócrates". "Os que estão a aguardar apoio para uma candidatura e que a querem até vão apoiá-lo [Sócrates] nos próximos tempos". Pelo menos até serem conhecidos os resultados das legislativas, nas quais Sócrates será recandidato a primeiro-ministro.

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A única coisa que a classe política dos náufragos discute: qual o meu lugar na lista e quantos é que vamos meter. Porque a coisa está mesmo preta neste tem-te não caias... Telefona ao Relvas, Manel! E não te esqueças de recordar ao Renato Sampaio aquele belo almoço com o Sócrates. E tu, Paulinho, marca lá na agenda a feira da próxima semana...

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Ser da classe política ou independente à espera de um convite é a grande azáfama de cerca de cinco mil portugueses entre os capitaleiros da sociedade de corte e os anjos da província que querem bilhete para uma adequada queda. Tudo em nome da defesa do quadrado de muitas vidinhas de subpolíticos profissionais pouco dados ao conselho antigo: vale mais torceres do que quebrares, tu não sabes fazer mais nada!

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