quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A PARÁBOLA DO TRIGO POBRE



                    


Havia Jesus regressado de Jerusalém, aonde fora para a festa dos Tabernáculos, e aonde proferira a parábola do mau rico e o pobre Lázaro, e a da ovelha desgarrada e o bom pastor, quando começou a espalhar-se, em Belém de Judá, a noticia do espanto dos fariseus ao ouvir a palavra do novo profeta. Simão Pedro e Tiago, filho de Alfeu, que haviam acompanhado o Mestre, narravam a admiração dos publicanos e os comentários dos escribas, no meio da turba, nas escadarias do Templo. E contavam, os dois, contentes, a alguns pastores, o efeito da palavra do Nazareno entre a orgulhosa gente da cidade de Herodes Antipas, quando Jesus, de repente, se apresentou entre eles. A tarde começava a cair, cheirosa e lânguida, pondo na luz do céu e nas coisas da terra uma resignação de ovelha mansa. As oliveiras, sob as quais os apóstolos falam aos homens simples, balançam a fronde docemente, acariciadas pela brisa que vem de longe, dos lados do mar. Os montes que cercam o lago de Genesaré desenham no horizonte paisagens de sonho, e paira, no ar morno, um aroma voluptuoso e casto, de ervas tenras que murcham ao sol.

Jesus chegara tão de leve, que nem as ovelhas que repousavam em torno se moveram para dar-lhe passagem. E foi mansamente que se quedou a ouvir o que Simão Pedro contava aos pastores. Quando, porém, este concluiu a narração, pôs-lhe ao ombro a sua mão de sombra e falou assim, com a sua voz boa e meiga, subida do coração:

- Em verdade, eu te digo, a ti, Simão Pedro, e a ti, Tiago, filho de Alfeu, e a vós outros, homens simples de Belém de Judá; em verdade eu vos digo que a parábola mais santa do reino de Deus ainda não saiu da minha boca. Escutai-a vós e guardai-a, unicamente para vós, dentro do coração, com o zelo e o cuidado com que um mendigo de Jerusalém esconderia sob o seu manto uma moeda de ouro perdida por um mercador.

As oliveiras aquietaram as frondes, como para escutar. As ovelhas quedaram, imóveis, os olhos atentos. E Jesus falou desta maneira:

- Um homem rico, de Sichem, possuía boas terras e entregou-as a dois lavradores de Jesrel, que deviam lavrá-las. Mandou que lhes dessem dois sacos de sementes, prometendo-lhes ir assistir à colheita. O servo que guardara as sementes era, porém, perverso de coração, e, para proteger um dos lavradores, deu-lhe um saco da melhor semente do celeiro e, para prejudicar o outro, não lhe deu senão semente murcha, de trigo pobre. Cada um dos lavradores tomou conta da terra que lhe era destinada, e preparou-a, e nela semeou. Chegado o tempo da ceifa, o homem rico de Sichem foi ver as terras lavradas. A do lavrador que havia recebido boa semente estava toda coberta de espigas, demonstrando prosperidade. A do outro que havia recebido sementes murchas e pobres apresentava metade da colheita do seu vizinho.

Á chegada do homem rico de Sichem, o primeiro lavrador foi ao seu encontro e disse:

- Vê como eu trabalhei a tua terra e dize-me se não estás contente comigo. Cada grão de trigo foi multiplicado por mil. E isso te prova o ardor do meu esforço e o prestógio de minha mão.

O outro lavrador aproximou-se, também, por sua vez, e disse ao homem rico de Sichem:

- A minha seara, Senhor, não é tão rica, mas sempre te ofereço alguma coisa. Vê as sementes que me deram. Eram todas murchas e pobres. Consegui, entretanto, que elas produzissem, e delas obtive, pelo menos, trigo para um pão.

O homem rico de Sichem examinou as sementes com que haviam trabalhado os dois lavradores. E disse ao primeiro:

- Deves ser louvado, porque aproveitaste a boa semente e a fizeste frutificar. O Senhor Deus te abençoará.

Voltou-se, então, para o segundo, e disse:

- Tu, porém, deves ser mais que ele, abençoado e louvado, pois foi maior o teu esforço e, produzindo menos, conseguiste mais; porque extraordinário não é que o lavrador tire muito trigo da boa semente, mas que tire algum trigo da semente murcha e sem préstimo. Tu és mais digno da minha confiança do que o teu vizinho, porque, enquanto ele fazia muito, ajudado de tudo, tu desajudado de tudo, fazias alguma cousa. A ti, pois, é que eu entrego as minhas terras, porque és tu, na verdade, o melhor lavrador!

Contada essa parábola, Jesus deu o seu sentido:

- Meu pai, que está nos céus, é como o homem rico de Sichem. Aos Seus Olhos, o que melhor trabalha não é aquele que vai semear a Sua palavra entre os bons, que já o são pela sua natureza, mas os que a fazem frutificar entre os rústicos, tirando alguma cousa do nada. E ele abençoará quantos, na Terra, façam o milagre do lavrador que, com a semente pobre, deu algum trigo ao homem rico de Sichem!

Disse isto, e afastou-se sem perturbar o repouso das ovelhas.

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