sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Talvez...


No ar da sala, o fumo dos cigarros misturava-se com a música que saía das colunas do gira-discos. Todas as pessoas estavam juntas em conversas. Para lá da idade que tinham, eram demasiado jovens. Seguravam copos. Sorriam e entusiasmavam-se ou concentravam o olhar e ouviam. Na rua, talvez chovesse. Os vidros altos da porta da varanda não mostravam mais do que a noite. Ele e ela eram indistintos de todos os outros. As imagens dos seus rostos e dos seus corpos eram naturais entre os casacos aos quadrados, as colarinhos pontiagudos, as calças de fazenda. Estavam sentados no sofá, lado a lado, e tinham terminado de conversar no momento em que as palavras dele lentamente se dissolveram no fumo dos cigarros e na música que saía das colunas do gira-discos, no momento em que ela não soube responder a uma conclusão banal. Para lá das palavras e da memória das palavras, continuou o significado daquilo que realmente disseram enquanto conversavam: os riscos brandos do sorriso dele à volta dos cantos da boca, a atenção solícita dos olhos dela, o tronco dele a aproximar-se a cada frase, os dedos dela a acertarem os camisas decabelos por trás das orelhas, os joelhos dele a tocarem as pernas dela, os lábios dela a articularem cada palavra como se estivessem pousados sobre os lábios dele.

Ela tinha talvez 25 ou 26 ou 27 anos. Ele tinha talvez a mesma idade. Ela tinha os cabelos lisos e escorridos sobre as costas. A pele do seu rosto era serena tal como se estivesse calma e desejasse ainda mais tranquilidade. Ele tinha os primeiros dias de uma barba que crescia e que já se podia imaginar. Os seus olhos eram o início de um caminho verde como uma floresta. De cada vez que um deles levava o copo aos lábios, o outro imitava-o e havia um momento em que pensavam na mesma coisa. Tinham sabido o nome um do outro há pouco mais de uma hora. Tinham começado a conversar porque as únicas pessoas que conheciam os tinham deixado juntos e tinham ido conversar com outros. Assim que foram apresentados, depois de sorrisos, simpatia, ele escolheu palavras para lhe perguntar o que fazia.

Ela respondeu que trabalhava numa produtora de cinema. Não lhe disse que passava os dias numa sala vazia, sentada a uma secretária, frente a um telefone que nunca tocava, a preocupar-se com a mãe que estava sozinha e deprimida em casa, com as facas todas alinhadas na gaveta dos talheres e com as promessas de matar-se ainda vivas na memória e com os pulsos ainda ligados pela última tentativa: a ambulância a serpentear pelas ruas, e ela com os dedos pousados sobre a testa da mãe, e a mãe com as pálpebras sem força pousadas sobre os olhos. Não lhe disse que chegava de manhã cedo, deixava a mala em cima da secretária e, depois de abrir as janelas, ficava imóvel e perdia todas as palavras dentro dos pensamentos. A claridade tocava os cartazes de filmes em que não tinha trabalhado, mas que tinha escolhido para afixar nas paredes. No fim da manhã, chegava o dono da produtora que, não esperando resposta, abrindo cartas com contas da luz e da água, perguntava se alguém tinha telefonado. Tinha sido ele que, na cama de uma pensão, durante um cigarro, a tinha convidado para trabalhar ali, quando ela ainda estava apaixonada e ainda acreditava que um dia ele iria deixar a mulher e, pedindo-lhe opiniões, iria realizar filmes lindos como os seus sonhos. Não lhe disse que, durante a hora de almoço, uma ou duas ou três vezes por semana, faziam sexo em cima da secretária, ou encostados à secretária, ou no chão em cima de um tapete. Não lhe disse que ele saía no início da tarde e que, só então, ela tirava a caixa de plástico da mala, os talheres embrulhados num guardanapo de pano e almoçava.

Ele falou longamente sobre cinema. Disse-lhe que ia muito ao cinema quando vivia na terra onde tinha nascido e de onde tinha saído para estudar Teatro no Conservatório. Não lhe disse que o homem do cinema o deixava sempre assistir de graça desde que ficasse durante todo o filme sentado no seu colo. Não lhe disse que, depois de cada filme, todos os rapazes que andavam com ele na escola, e todos os rapazes mais velhos, lhe chamavam nomes e lhe batiam. Não lhe disse que os homens ficavam encostados às grades da casa ao lado do café a verem e a rirem-se. No recreio da escola, batiam-lhe também. No caminho para a escola, batiam-lhe, tiravam-lhe a mala e espalhavam pelo chão os livros e os cadernos com páginas sujas de lama. Depois, já era mais velho, e os colegas continuavam a bater-lhe e desviava o olhar, ficava parado quando os rapazes mais novos lhe vinham dar pontapés nas pernas e murros no centro das costas. Não lhe disse que, nos três anos de Conservatório, não tinha conseguido passar a nenhuma disciplina porque tinha vergonha da sua própria voz, porque tropeçava na sua própria voz em cada palavra que tinha de dizer. À noite, trabalhava num bar onde via actores e onde falava com alguns deles, onde lhes oferecia copos de plástico com vodka e sumo de laranja, e onde se ria exageradamente de cada vez que algum dizia uma piada. Depois, voltava para o seu quarto, adormecia a pensar e, pouco depois, quando amanhecia, não tinha forças para se levantar. A viúva que lhe arrendava o quarto batia à porta e perguntava-lhe se não ia às aulas, dizia-lhe que arrendava quartos a estudantes e não a vagabundos. Então, levantava-se, vestia-se e caminhava sozinho pelas ruas da baixa. Olhava para as montras e sentava-se à frente de uma chávena vazia de café nas esplanadas onde sabia que não chegariam empregados a perguntar-lhe o que queria tomar.

Ela disse-lhe que uma produtora de cinema precisa sempre de actores. Ele disse-lhe que um actor precisa sempre de produtoras de cinema. Riram-se. E disseram muitas coisas. E não disseram muitas coisas. No ar da sala, a música do gira-discos era indistinta do fumo dos cigarros e bebidas no colo. Havia algum tempo que grupos de pessoas tinham escolhido momentos para se despedirem com sorrisos e saírem.(...)

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