terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O poema triste

 

De manhã, a senhora rouxinol pousou
o ovo branco e voou
daquele ovo não nascerá um filho; não,
nenhum de nós poderá nascer dali,
nenhum de nós poderá nascer. Daqui,
assiste-se à morte da paixão
no voo de todos os pássaros
até à morte de todos os amores
e nem sequer há dores
e nem sequer há choros
e eu não tenho um grande plano
nem sequer um muito pequeno
grito por Deus,
Deus diz-me que já tentou
e eu nem sou Deus
já nem sou quem antes gritou.
No lado muito dentro da minha garganta
nascem mais paredes
tijolos de tanta dor, tanta revolta,
que em vez de palavras crescem redes.
Todos os pássaros, agora, são poemas tolos
e nós ainda mais, nem sequer somos pássaros,
nem sequer somos poemas,
sequer nascemos, apenas.
De manhã, a senhora rouxinol pousou
o ovo branco e voou
daquele ovo não nascerá um filho; não,
nenhum de nós poderá nascer dali...

Sem comentários:

Enviar um comentário