domingo, 16 de janeiro de 2011

Fosfenos Poéticos



Dizia-se um Poema,
Gravado na luz de um fosfeno,
Vendia-se como sendo inofensivo veneno,
E morria envenenada entre comentários de pena,
Para ressuscitar na métrica de uma estrofe serena,
Qual Fénix renascida de um inflamado verso obsceno!

Achava-se uma Luz singular,
Que as pálpebras os halos protegiam,
Dos olhos que fosfenos alheios não viam,
E dedicava-lhes estimados poemas de pesar,
Preterindo os Amores que não soube bafejar,
Por fiéis tercetos que triângulos descreviam!

Congratulava-se por achar-se vértice privilegiado,
Perdida na superfície de seu triângulo fechado,
Oclusão sólida de um incondicional prisma perfeito,
Feito com emendas cegas de um Poema iluminado,
Que beijava novos fosfenos de poético efeito,
Sobre sonetos desgarrados de nulo proveito!

Elegeu uma folha em branco,
Sua fiel depositária de coisa nenhuma,
Na qual se arrastava num sedutor verso manco,
Esmagado pelo reverso de seu lado mais franco,
Que mentia à traição nos lados opostos da bruma,
Escrevendo equiláteros em fosfenos de escuma!

Já não sentia na carne mastigada,
O discorrer da tinta permanente,
Nem seu papel era folha destacada,
No livro de sua vida envergonhada,
Caligrafado em claro tom consciente,
De uma cor que não sabia aparente,
Na ingénua confiança do seu passado,
Perseguidor tenaz sempre presente,
Em cada verso de um falso versado,
Sedutor ardiloso de fácil corrente!

Andam por aí na rede prostituída,
Palavras que se travestem de todos os sonhos
Oferecendo Amor, fortuna e a sorte perdida
Às páginas rasgadas de uma vazia poesia vencida,
Pela tristeza virtual pejada de vícios medonhos,
Derramados em lágrimas de fosfenos enfadonhos,
Que se apagam nos olhos abertos da vida!

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