sexta-feira, 15 de outubro de 2010

AMOR DE ANUNCIAÇÃO

Orrik "Angels in love"


Tudo em você me atrai 
sou teu, 
sinto que te pertenço
tenho em mim seu gosto
sua pele me toca como
se fosse minha segunda
pele.

Tua pele morena
que me aquece e provoca
desejos em todo meu corpo
sou tua
agora e sempre
teu corpo completa o meu
côncavo e convexo.

Te amo
E estou cada vez mais
apaixonado pela sua
candura.
Cada vez mais sedento
pela sua doçura.


Teu amor me envolve
como pura seda
toca minha pele
suavemente...
como uma língua macia
a acariciar meu corpo.


Nas torrentes
De tuas delícias
Me darás de beber
Farturas de manjares
O amor que se faz
Sem fronteiras
Num afeto assim
Desprovido de limites.


Como um rio caudaloso
nos banhamos em fluídos
de nossos corpos sedentos
no amor enlouquecidos
em prazeres e desejos
terno e quente
num mergulhar profundo.


Lindo é ter você
de braços abertos
esperando por mim
onde eu adentro
e me entrego
à tua dança especial
ao teu carisma
carinhos infindos
amor sem pejo


Amor que provêm
que retêm anseios
de partidas e chegadas
que adentra a madrugada
no calor do edredon
em nossos corpos nus
no ar de perfumes místicos
que do amor exalam.


Andamos pelo mundo
Das palavras todas
Que nos promovem
À menestréis e poetas
Atrevendo-nos a viver
Sagas de reis ciganos
Habitando doces tendas
Irmã do vento você
Irmão das estrelas eu
Unidos pela ternura.


Num mundo mágico vivemos
somos todos
e somos um 
Mestres na arte da palavra
com elas cobrimos
nosso leito
e  em pétalas de rosa
nos deitamos em amores 
perfumados e febris.


Bruma em rosto eterno
Mármores brancos adiam
Por mais mil anos
A saga do nosso amor
Somos Taj Mahal ao longe
Brilhos de incontida beleza
Amor de anunciação.

O anjo





E os dias passam, como a saudade que se alonga.

Tudo em meu redor é preto e branco. Só a grama é verde... a égua, parda... a acerola, rubra... o joão-de-barro, barro... como quando eu nasci.

Quando nasci, Deus descera de seu trono. Fora espairecer.

Um anjo alegre, brincalhão e esperto, tomou o seu lugar. Deu ordens aos mercúrios... fez serenata à Virgem... jogou água em Cristo... construiu um novo lar.

Quando Deus voltou, encontrou o Céu todo mudado. E viu que estava bom.

Quando nasci, um anjo alegre, brincalhão e esperto, veio ficar junto de mim porque Deus quis.

Mas hoje, na imensidão desta cinzenta esfera, não vejo mais o luminoso pássaro. Tudo em meu redor é preto e branco. Só a grama é verde... a égua, parda... a acerola, rubra... o joão-de-barro, barro... como quando eu nasci.

O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.

O excesso de som ensurdece o ouvido.
Condimentos em demais estragam o gosto.
O ímpeto das paixões perturba o coração.
A cobiça do impossível destrói a ética.
Por isso, o sábio em sua alma
Determina a medida de cada coisa.
Todas as coisas visíveis lhe são apenas
Setas que apontam para o Invisível.


Centro de Budismo Tibetano

Centro de Budismo Tibetano
                                                                                          Karme Tewgsun Tcholing

Perséfone



Como saciar a dor, ó Perséfone, cuja mãe é a paixão?
Não a paixão dos fracos ou dos rendidos,
Dos loucos sem loucura, dos homens sem inteligência,
                                                       [dos gênios sem sabedoria,
Mas dos bravos descendentes de Aquiles,
Dos honrosos herdeiros de Ulisses.

Como saciar a dor cuja causa é o prazer, ó Perséfone?
O prazer dos defensores, dos desbravadores, dos sensatos,
                      [dos justos, dos atormentados mas destemidos.
Dize, ó Perséfone, tu que foste arrancada do seio de tuas
                                    [flores para comer romãs na eternidade,
Tu que, como Eva, foste enganada e condenada à saudade
                                                                                    [e ao lamento,
Dize: como fizeste para saciar a dor, ganhar a
         [complacência de Hades, a generosidade de Zeus e te
                                                    [manteres viva estando morta


O pêndulo




Dentro da noite ouço o pêndulo do tempo,
Dos dias inúteis, das horas inúteis, dos sonhos
                [improfícuos, da realidade inexorável.
*
Ele vem vindo, o futuro, vem chegando lentamente,
Tranquilo, consciente, esperançoso,
Vem murmurando as minhas frustrações, as minhas
                                                                               [decepções,
As minhas falhas, meus projetos incompletos, meus
    [desejos sem conquista, minhas lutas não lutadas,
Minha ânsia de viver, de lutar, de escrever, de conhecer,
                 [de ficar, de estar, de ser, de querer, de morrer,
Minha insegurança, minha impaciência, minha raiva,
Vem marchando, solitário e útil, de coturno e [metralhadora,
Entoando a canção do infinito, vem marchando como
                                                                                  [um relógio.
*
Afundo a cabeça no travesseiro, mas é inútil:
Dentro da noite ouço o pêndulo do tempo.

O OUTRO LADO DO EU

.                                                                             Abylyo Koelho, O outro lado do eu

.
.
.
Enquanto dormitava, sentia o pensamento deslizar para lá de si, esgueirando-se das prateleiras onde estava arrumada uma infinidade de ideias por eclodir.
Este, contudo, parecia ter vontade própria. Galgava, com o maior desplante, as fronteiras visíveis, e criava novos horizontes com a maior das naturalidades.
Não, aquele pensamento não era seu. Havia algo a movê-lo que o ultrapassava, que rompia as fronteiras do medo. E ele via-o ir, impotente, desenhando novas paisagens, novos sentires...
Mas, se não era seu, porque lhe doía tanto a sua impertinência? Porque o perturbava o seu bater de asas?



AD-MIRAR A SANTA REBELIÃO DO LIVRE PENSAR

“Sou hoje um homem livre, sem saber de quê...”


Quando silencio,
você não entende...
É o medo que nos faz gritar;
quebrar a palavra dada,
buscar os lugares altos
e fugir das sombras
onde os pássaros vão clamar.
Recolho-me em províncias,
em vigílias a oeste
antes de contra atacar...
Depois sigo por terra,
entre flores
e barris de pólvora;
(sei dos riscos de navegar)
por corações reacionários...
E não é apenas isso
que me faz silenciar;
o meu coração subversivo
não vai conspirar,
(isso não é uma metáfora),
prometo-me jamais debelar
a revolução de meus
bichos...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

 

SE AS MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR



Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!


NÃO TE ENTENDO CORAÇÃO





Mas se não amo, nem posso,
Que pode então isto ser?
Coração, se já morreste,
Porque te sinto bater?
Ai, desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber.



Porque a olho quando a vejo?
Porque a vejo sem a olhar?
Porque longe dos meus olhos
Me andam os seus a lembrar?
Porque levo tantas horas
Nela somente a pensar?



Porque tímido lhe falo,
E dantes não era assim?
Porque mal a voz lhe escuto
Não sei o que sinto em mim?
Porque nunca um não me acode
Em tudo que ela diz sim?



Porque estremeço contente
Quando ela me estende a mão,
E se aos outros faz o mesmo
Porque é que não gosto e não?
Deveras que não me entendo,
Nem te entendo, coração.



Ou me enganas, ou te engano;
Se isto amor não pode ser,
Não atino, não conheço
Que outro nome possa ter;
Ai, coração, que vivemos
Sem tu nem eu o saber.

 

NÃO É FÁCIL


Não é fácil amar-te, não é fácil
colar à minha a tua pele.
Mas, por mais que faça,
não sei fugir à força que me impele
a confundir no meu o teu abraço.


Nós viemos de longe, muito longe,
escapados de nós mesmos, foragidos,
em busca do lugar donde
nos apelavam os sentidos.


Mas tão depressa nos perdemos, tão depressa
a memória das coisas nos fugiu
que, rápida, a estranheza
do tempo nos tomou, como se um rio,
em passando por nós, nos esquecera.


Não é fácil amar-te, não é fácil
possuir-se a ausência de si mesmo.
Mais difícil, porém, é sempre o espaço
a vencer de regresso ao que esquecemos.

 

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

 

 

NUA

Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...

 

CARTA DUM CONTRATADO



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta que dissesse deste anseio

Deste anseio

De te ver

Deste receio

De te perder

Deste mais que bem querer que sinto

Deste mais que bem querer que sinto

Deste mal indefinido que me persegue

Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta

Amor.



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta de confidências íntimas,

Uma carta de lembranças de ti,

De ti

Dos teus lábios vermelhos como tacula

Dos teus cabelos negros como dilôa

Dos teus olhos doces como macongue

Dos teus seios duros como maboque

Do teu andar de onça

E dos teus carinhos

Que maiores não encontrei por aí...



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Que recordasse nossos dias

Nossos dias na capopa

Nossas noites perdidas no capim

Que recordasse a sombra

Que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

O luar que se coava das palmeiras sem fim

Que recordasse a loucura

Da nossa paixão

E a amargura

Da nossa separação...



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Que a não a lesses sem suspirar

Que a escondesses de papai Bombo

Que a sonegasses a mamãe Kiesa

Que a relesses sem a frieza

Sem a frieza do esquecimento

Uma carta que em todo o Kilombo

Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta

Amor.



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta que ta levasse o vento que passa

Uma carta que os cajus e cafeeiros

Que as hienas e palancas

Que os jacarés e bagres

Pudessem entender

Para que se o vento a perdesse no caminho

Os bichos e plantas

Compadecidos de nosso pungente sofrer

De canto em canto

De lamento em lamento

De farfalhar em farfalhar

Te levassem puras e quentes

As palavras ardentes

As palavras magoadas da minha carta

Que eu queria escrever-te, amor...



Eu queria escrever-te uma carta...



Mas ah meu amor, eu não sei compreender

Por que é, por que é, por que é, meu bem

Que tu não sabes ler

E eu – Oh! Desespero! –

não sei escrever também!

não sei escrever também!


BALANÇA


Coloca a tua vida
num prato da balança – a tua vida
inteira, não hesites:
cada sonho da infância;
cada desejo ou cada angústia
desse longo e tão mudo purgatório
a que chamaste adolescência;
cada ambição funesta ou virtuosa
que já realizaste ou se perdeu
desde o dia em que alguém te considerou
um adulto sereno, responsável;
e todos os prazeres, todas as alegrias,
todos os medos, todas as esperanças
onde quiseste ver reflectida
a beleza do mundo.

Do outro lado põe apenas
o rosto de quem amas:
os olhos, o sorriso, o tom da voz,
nada mais do que isso.

Depois não tenhas medo:
destrava num só gesto essa balança
e vê o resultado.

 

TARDE DE OUTONO


O POETA

Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?



A SAUDADE

De um puro amor a lânguida saudade
É doce como a lágrima perdida,
Que banha no cismar um rosto virgem:
Volta o rosto ao passado e chora a vida.



O POETA

Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.



A SAUDADE

Pálidos sonhos do passado morto
É doce reviver mesmo chorando:
A alma refaz-se pura. Um vento aéreo
Parece que do amor nos vai roubando.



O POETA

Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?



A SAUDADE

A casa está deserta. A parasita
Nas paredes estampa negra cor,
Os aposentos o ervaçal povoa,
A porta é franca... Entremos, trovador!



O POETA

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me mais prantos, meu Deus!
Eu quero chorar aqui...
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.



A SAUDADE

Sonha, poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo — dos amores à cantiga.



O POETA

Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!



A SAUDADE

É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante:
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem;
E a vida foge ao peito... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do poeta
Doira a amante de nova formosura!



O POETA

Que gemer! não me enganava!
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas
E as venturas choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde:
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
Por ela tanto chorei,
Que mancebo morrerei...
Adeus, amores, adeus!

HIPÉRION E DIOTIMA



Às vezes, quando a noite se prolonga
na espessa madrugada, abrindo as veias,
e podemos ouvir, sem grande esforço,
o secreto ruído das asas
dos anjos pelo céu,
é um bom exercício contemplar
um rosto que se amou, fixar-lhe os traços
até sabermos reconstituir
cada pequeno pormenor,
cada poro da pele outra vez nossa,
cada olhar liquefeito, cada antigo
sorriso onde ardiam as maiores
ilusões deste mundo.


Agora que experimento fazer isso,
utilizo o teu rosto: ele atravessa
a cegueira das noites em que não dormimos,
o espelho embaciado dos meus olhos,
o cristal sempre intacto dos mais belos
sonhos.


Podes ficar aqui? Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer.
Por favor, não te esfumes no meu sono,
nesse pântano lento onde me afundo
entre o lodo já turvo dos lençóis
e as lágrimas tão ácidas do dia
que há-de nascer, que já nasceu sem ti,
como se o próprio sol quisesse castigar
a minha vida com a tua morte.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ESCREVO O TEU NOME



Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra -
sobre o seu voo contariam os teus olhos mil histórias
que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado
com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor
para cima das camas. Mas o lápis rola subitamente

sobre a mesa e pára a sepultar as palavras que nunca
te direi - porque o rio não regressa à cidade que primeiro
beijou, nem o navio ruma jamais ao porto que o viu largar.

LEMBRANÇAS DO LUGAR



Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS



Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.

Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»

Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»

Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.

ÂNSIA



Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo