terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sob Efeito Da Lua




Minha tristeza é interna e solitária como eu, por isso, sempre que o nível suportável de solitude ultrapassa, me derramo em palavras, numa enchente de sentimentos não dolorosos, mas incômodos.

Minhas águas crescem e invadem o pequeno escritório, onde me guardo de coisas que, assustadoramente, não tolero e temo. É nesse lugar oceânico que meu íntimo perde a cerimônia e nada nu em palavráguas

Águas versadas ou não, que saem arrastando, nessa correnteza voraz, a mão não entrelaçada a minha, o peito que não veio ao encontro da minha cabeça interrogativa, o olhar salvaguarda que não se pôs em oferta sobre minha alma, mas eu escapo, ainda em exaustão, dessa enxurrada turva e ao avesso que é ser só.

São tão difíceis esses momentos confessos, jamais quis o vazio e tê-lo cansa, mas eu luto com lápis, papéis e idéias passarinheiras. Mergulho no ar com asas fortes e risco desenhos possíveis de ser tudo. Renasço, diariamente, nessa metamorfose humana com outras caras, outros rabiscos e me faço riso.

Sou uma mulher fragmentada, cheia de inteiros, e minha alegria é externa, às vezes circula por dentro, como um sol. Não, a luz não se acomoda na boca e vai além, aos olhos invade e filtra humanidades. Meus órgãos submetem-se ao encantamento e o coração reage ao toque.

Que eu seja ingênua nesse ensaio de viver e nunca perca a mania de acreditar no invisível! Eu mesma, que em tantos momentos não me vejo, mas me acredito.

Gosto de gente e de tocá-las com gentilezas e amor, que sejam entendidas como são, pois sem gestos libertários somos e seremos uma tragédia de carnes e ossos apodrecendo no tempo efêmero e é uma cretinice esse desperdício de emoções, quando se pode bebê-las até a última gota.

Sou essa loba silenciosa e cheia de garras, na solidão da montanha, mas não me escondo. Desço e rondo a cidade quando há fome. Lambuzo-me de ruídos, luzes e espíritos, depois volto ao cume e lanço versos a lua.

Não caço afetos, porque já expliquei demais essa inquietação, agora me deixo ao acaso, ao laço de um valente caçador.

Você vai pensar: que coração triste tem o poeta! Mera conjetura, pois há uma tristeza que cura e uma alegria que envenena. Sou as duas e mais, o reverso, o verso, o que não se explica... Sou muitas! Sou loba sob lua, fêmea, de fases.

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