quinta-feira, 11 de novembro de 2010


A porta


Ante a porta trancada, envolta em luz, lua verde filtrada entre frestas,
detém o passo
o estranho caminheiro.
Ofega-lhe o peito
da longa estrada
de obstáculos percorrida.
Turvos os olhos
do sal dos caminhos.
Trêmulas as pernas
do peso dos abismos.
Crestada a pele
dos mil sóis de mil meios-dias.
Ali, prestes a ter
da busca a recompensa,
não vê com os olhos
o que os olhos desejam ver.
A porta.
Fechada sem trinco.
Lacrada sem lacre.
Inefável em sua existência
de simples existir.
Fluida e concreta.
Opaca e luminosa. A porta.
Abstração de aço e chumbo.
Fim em si mesma.
E o viajante, ali,sonhador incorrigível,
sugado dos ventos de lentos caminhos,
vê na porta intransponível todo o mistério de sua própria vida.



 
VÍDEO, GRATIAS!


Em queda livre,
caia de boca na mediocridade!
Tenha a futilidade da pluma ao vento:
lave os seus pentelhos com shampoo de ervas
escove seus olhos com o creme dental mais branco
lave ruas roupas com a fumaça do erotismo
e seja gay no horário nobre da TV;
coma o horóscopo de cada dia e sorria o riso branco de silicone.
É preciso profanar
os seios virgens da bailarina azul
e amar metaforicamente
todas as putas e travestis.
Caia de boca
na boca do mundo
e viva a média de sua classe
através das lentes de um falso cristal.
Afinal, será essa a única dor que não dói?





A dor


A dor é azul como o azul de rosas inexistentes
diáfana e suave
sabe a cheiros de mar a dor
triste e azul como o mar
a dor é fria é gelo é aço
corta em pedaços o ser a dor não sofre fazendo sofrer
a dor não chora
fazendo chorar
e o sal que à boca chega
tem cheiro de mar
do mar não vem a dor
do ar não vem a dor
do fogo não vem a dor
queima afoga expira
no peito em dor
a própria dor.



Amor sem fim


rompeu-se o dique às dores
a afogar-me o frágil barco
às ondas insanas em dor tornadas

e vêm-me aos olhos vagas sombras
em véu de angústia a tolher-me o pranto
em vão me esbaldo no remar inútil
em vão me esforço a sofrer calado

ondas de triste espanto a dor navega
só e profundamente só me sinto
tendo por prazer a dor da entrega
e pulsa em mim a angústia total

fujo de mim e em mim me afogo
em mar de escolhos de espanto em dor
sou o marinheiro triste a fugir do porto
para a fatal viagem de um amor sem fim.
 


Velho dragão

Vou-me consumindo em chamas
sopradas por um velho dragão
e enquanto sofro me renovo
a nascer e renascer a cada instante.
Não bastam, no entanto, as chamas
a devorar em lenta agonia o peito em dor:
mais que a voraz consumição,
mata-me aos poucos o sonho inútil
de ver em ti transformada a fera rude.
Embora saiba que és tu a alma
do monstro que habita as cavernas de meu ser,
pressinto-te amando-me mais
quanto mais me consome a vida a chama desse amor.
És o deus vingador em línguas de fogo tornado,
para trazer a mim o sentido profundo
de ter-te em chamas a queimar meu peito,
de viver em morte cada segundo em que asseguro amar-te mais que à própria dor.





Salada geral em 1978



Sou poeta!
Poeta? Poeta!? Estranha palavra, esta.
Poeta... Lembra-me
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.
Parnasiano até no nome - alexandrino.
Mar não sou ourives,
como posso ser poeta?
Busco apenas as palavras e brinco com elas.
Palavras em “estado de dicionário”
como já disse o Drummond.
E vou construindo versos mancos
- como a própria vida.
(É inútil não querer filosofar
através de uma comparação ou de uma metáfora
metida a besta).
Mas vou brincando com as palavras
- inúteis?
Sei lá! Talvez o sejam (mas não quero pensar nisso).
Abro a janela (bonita palavra - janela! Já
pensaram se não houvesse janelas no mundo?
Um pobre poeta não poderia olhar para fora!)
Olho os meus companheiros e estão taciturnos.
Drummond também já disse isso.
Só não disse por que estão taciturnos:
as esperanças que eles nutrem são também inúteis.
Voltemos à janela: abro-a ou já estava aberta?
Não importa!
Olho o mundo, ou melhor, o Brasil!
Vejo a ilha de paz e tranquilidade.
Vejo a felicidade (para não dizerem que não rimei)
de uns poucos burgueses - burgueses: palavra fora de moda
(desde que Oswald escreveu sua ODE AO BURGUÊS).
Melhor dizendo: uns poucos executivos e tecnocratas
- FELIZES - sob a batuta do presidente.
Melhor fechar a janela
para não ver a miséria de salário-mínimo
as favelas do BNH
os trombadinhas
os motoristas de táxi
os professores
os médicos
o jovem estudante cheio de ideais
o contista mineiro
e a orquestra sinfônica...
Se sou poeta, como fazer poesia
na desesperança?
Para que brincar com as palavras?
Ver o tempo presente?
Ou ser um fingidor?
Contestar? Protestar?
Gritar? Berrar?
Escrever versos que ninguém lerá?
Pichar as paredes e os muros?
Virar monge tibetano? Tomar LSD
e vender a alma numa feira hippie?Talvez ao Poeta baste
o sorriso de uma criança
-desdentada - desnutrida - maltrapilha -
para ver o futuro da Grande Nação.
Com suas usinas atômicas
e as águas de Itaipu.
Com reus rios e matas.
Rios - São Francisco, Pirassununga, Verde, Grande -
IPANEMA.
Matas - da Cantareira, do Cipó, Atlântica -
cartões postais dos saudosistas.
Riquezas do meu Brasil
transformadas em dólares e ienes.
O ar puro vendido ao peso de ouro
da especulação imobiliária.
Fechemos, rápido, fechemos
todas as janelas!
Vedemos todas as frestas!
Cerremos todas as cortinas!
Alguém já disse que a Poesia morreu:NÃO ASSISTAMOS AOS SEUS FUNERAIS!






VIADUTOS


I

À sombra do viaduto,
olhos ferozes contemplam a cidade.
Traçam planos absurdos
enquanto mastigam pedaços de pão
para aplacar a fome do cheiro de cola.
Ninguém está imune.
São todos, todos culpados.
Os vermes virão da terra
e quebrarão os vidros dos automóveis de luxo.
São ratos nauseabundos
a misturar-se aos perfumes franceses
de lojas elegantes.
Não há ratoeiras que os prendam.
Não há polícia que os detenha.
Estão todos, todos perdidos.Eles dominarão a terra,
farão compreender aos burgueses
quão frágeis se tornaram
as estruturas sociais.Os ratos só sabem
do roncar de suas barrigas.
Ignoram planos traçados
nos gabinetes oficiais.
São ratos, apenas ratos,
a arrepiar estruturas sociais.
Enquanto isso, a cidade
olha as estrelas difusas
e escreve leis para abolir os ratos.


II


O viaduto inchou e explodiu.
Dos escombros pulularam ratos
que assombraram os planejadores.
Tomaram de assalto
gavetas ministeriais.
Surgiram aos bandos
dos punhos de renda dos homens da lei.
Seus guinchos gravaram
em discos a laser de duplas caipiras.
Seu fedor implacável
grudou-se para sempre
nas notas de câmbio
de bancos oficiais.
Seus pelos entrelaçaram-se
às peles mais caras
das putas de luxo.
Seus dentes podres abocanharam
as trufas importadas
no prato do velho banqueiro.
Seus olhos de sangue assustaram
meninos inocentes da bolsa de valores.
E quando tudo perdido parecia,
a lei salvadora estampou-se
na página primeira de todos os jornais, revogando disposições em contrário:
DE AGORA EM DIANTE, PROÍBEM-SE OS VIADUTOS!


III


No ano de dois mil duzentos e vinte,
um viajante estelar aqui pousou:
com técnicas estranhas começou
a buscar as causas do estranho vazio.
Encontrou cidades intactas
e obras mil de raro saber.
Nos campos, as árvores vergavam
de frutos repletas.
Mares e oceanos abrigavam
peixes, crustáceos e mamíferos
de espécimes estranhas
aos olhos atentos do esperto viajante.
Mesmo os morros e planaltos,
as florestas e matagais
pássaros, flores, feras possuíam,
num quadro perfeito
de harmonia natural.
Faltava, apenas, ao viajante
examinar com mais rigor
as águas paradas dos rios antigos.
O olho eletrônico da máquina alienígena
aos olhos estupefatos do experiente viajante
revelou a presença aos milhares,
em formas primitivas e mutantes,
do velho e conhecido vibrião da cólera.




Miseráveis



Busco em ti,
prostituta de Paris,
o mesmo que sempre vi na Roma dos travestis;
reconheço em ti,
menino de rua,
das ruas de São Paulo,
a verdade ainda nua
que sempre sofri;
revejo em ti,
gueixa-mulher do Japão,
toda a discriminação
que sempre combati;
associo a ti,
negro pobre de Nova Iorque,
tndo o assédio torpe
do capital que te rodeia;
renego em ti,
muçulmana entrevista,
a religião fundamentalista,
a tecer a teia
da escravidão;
desprezo em ti,
jovem do morro de Janeiro,
promessas de ano inteiro,
que te fazem governantes;
bichas e negras,
gueixas e pobres,
do mundo das trevas.
à luz que vos encobre,
tendes em tudo toda a dor
de terdes, à margem da margem,
o esgoto do amor
num pão que vos dais
a podre sociedade
que vós ameaçais.


Fim do sonho


Em transe, como ao ópio acorrentado,
revisito o mundo num verso de Pessoa.
Acompanha-me em si mesmo mergulhado o poeta em multifantasmas enigmáticos
a sorrirem o sorriso triste de ironia lusa.
Talvez a ver do mundo as naus que nunca
do porto à espera jamais zarparam,
desfeitas em nós de nadas e espumas.
Loucos ambos, loucos todos, a mim, ao poeta
e seus eus (caminhamos num mundo já previsto
por deuses falsos e falsas crenças
a vir-a-ser do caos o eterno instante)
parece tornar o futuro que já passou,
nos piscas-piscas de velozes máquinas,
na planta murcha à entrada do arranha-céu
de um céu virtual - tristes todos - eu e
meus poetas - a rezar o credo dos ateus -
como deuses, como deuses vãos em madeiros
rotos, como em raios de tormentas
à luz do semi-inverno, fogos fátuos
de insanidade à luz do néon, do néon de mil,
de milhões de luminosos que anunciam
- para breve -
o
fim
do
sonho.

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