sábado, 13 de novembro de 2010

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava!




Escrevias pela noite fora.

Olhava-te, olhava!



Escrevias pela noite fora.

Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada sorriso.

Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças à volta.

Agora há prédios onde havia laranjeiras e romãs
no chão e as palavras nem o sabem dizer,
apenas apontam a rua que foi comum, o quarto estreito.

Um livro é suficiente neste passeio.

Quando não escreves estás a ler e ao
lado das árvores o silêncio é maior.

Decerto te digo o que penso baixando
a cabeça e tu respondes sempre com
a cabeça inclinada e o fumo suspenso no ar.

As verdades nunca se disseram.

Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio da semana.

Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias,
longe da alegria,
a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício.

Este abandono custa.

Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo.

Pudesse eu propor-te vida menos igual,
outras iguais obrigações.

Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.


Cinzas




Cinzas

A última brasa ardeu na cinza adusta:

Tudo passou, tudo se fez em poeira...

E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.

O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...

Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!

Chama efêmera, o amor!

Baldado surto,
A glória!

Ah!

Coração mesquinho e raso...

Ah!

Pensamento presumido e curto...

E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.

Sem comentários:

Enviar um comentário