Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava!

Escrevias pela noite fora.
Olhava-te, olhava!
Escrevias pela noite fora.
Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada sorriso.
Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças à volta.
Agora há prédios onde havia laranjeiras e romãs
no chão e as palavras nem o sabem dizer,
apenas apontam a rua que foi comum, o quarto estreito.
Um livro é suficiente neste passeio.
Quando não escreves estás a ler e ao
lado das árvores o silêncio é maior.
Decerto te digo o que penso baixando
a cabeça e tu respondes sempre com
a cabeça inclinada e o fumo suspenso no ar.
As verdades nunca se disseram.
Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio da semana.
Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias,
longe da alegria,
a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício.
Este abandono custa.
Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo.
Pudesse eu propor-te vida menos igual,
outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Cinzas
A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor!
Baldado surto,
A glória!
Ah!
Coração mesquinho e raso...
Ah!
Pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
Olhava-te, olhava!
Escrevias pela noite fora.
Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada sorriso.
Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças à volta.
Agora há prédios onde havia laranjeiras e romãs
no chão e as palavras nem o sabem dizer,
apenas apontam a rua que foi comum, o quarto estreito.
Um livro é suficiente neste passeio.
Quando não escreves estás a ler e ao
lado das árvores o silêncio é maior.
Decerto te digo o que penso baixando
a cabeça e tu respondes sempre com
a cabeça inclinada e o fumo suspenso no ar.
As verdades nunca se disseram.
Queria prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio da semana.
Mantêm-se as causas iguais das pequenas alegrias,
longe da alegria,
a rotina dos sorrisos vem de nenhum vício.
Este abandono custa.
Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo.
Pudesse eu propor-te vida menos igual,
outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.
Cinzas

Cinzas
A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.
O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!
Chama efêmera, o amor!
Baldado surto,
A glória!
Ah!
Coração mesquinho e raso...
Ah!
Pensamento presumido e curto...
E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.
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