quinta-feira, 14 de outubro de 2010

 

SE AS MINHAS MÃOS PUDESSEM DESFOLHAR



Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!


NÃO TE ENTENDO CORAÇÃO





Mas se não amo, nem posso,
Que pode então isto ser?
Coração, se já morreste,
Porque te sinto bater?
Ai, desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber.



Porque a olho quando a vejo?
Porque a vejo sem a olhar?
Porque longe dos meus olhos
Me andam os seus a lembrar?
Porque levo tantas horas
Nela somente a pensar?



Porque tímido lhe falo,
E dantes não era assim?
Porque mal a voz lhe escuto
Não sei o que sinto em mim?
Porque nunca um não me acode
Em tudo que ela diz sim?



Porque estremeço contente
Quando ela me estende a mão,
E se aos outros faz o mesmo
Porque é que não gosto e não?
Deveras que não me entendo,
Nem te entendo, coração.



Ou me enganas, ou te engano;
Se isto amor não pode ser,
Não atino, não conheço
Que outro nome possa ter;
Ai, coração, que vivemos
Sem tu nem eu o saber.

 

NÃO É FÁCIL


Não é fácil amar-te, não é fácil
colar à minha a tua pele.
Mas, por mais que faça,
não sei fugir à força que me impele
a confundir no meu o teu abraço.


Nós viemos de longe, muito longe,
escapados de nós mesmos, foragidos,
em busca do lugar donde
nos apelavam os sentidos.


Mas tão depressa nos perdemos, tão depressa
a memória das coisas nos fugiu
que, rápida, a estranheza
do tempo nos tomou, como se um rio,
em passando por nós, nos esquecera.


Não é fácil amar-te, não é fácil
possuir-se a ausência de si mesmo.
Mais difícil, porém, é sempre o espaço
a vencer de regresso ao que esquecemos.

 

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas
Despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for precido lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

 

 

NUA

Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...

 

CARTA DUM CONTRATADO



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta que dissesse deste anseio

Deste anseio

De te ver

Deste receio

De te perder

Deste mais que bem querer que sinto

Deste mais que bem querer que sinto

Deste mal indefinido que me persegue

Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta

Amor.



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta de confidências íntimas,

Uma carta de lembranças de ti,

De ti

Dos teus lábios vermelhos como tacula

Dos teus cabelos negros como dilôa

Dos teus olhos doces como macongue

Dos teus seios duros como maboque

Do teu andar de onça

E dos teus carinhos

Que maiores não encontrei por aí...



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Que recordasse nossos dias

Nossos dias na capopa

Nossas noites perdidas no capim

Que recordasse a sombra

Que recordasse a sombra que nos caía dos jambos

O luar que se coava das palmeiras sem fim

Que recordasse a loucura

Da nossa paixão

E a amargura

Da nossa separação...



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Que a não a lesses sem suspirar

Que a escondesses de papai Bombo

Que a sonegasses a mamãe Kiesa

Que a relesses sem a frieza

Sem a frieza do esquecimento

Uma carta que em todo o Kilombo

Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta

Amor.



Eu queria escrever-te uma carta

Amor,

Uma carta que ta levasse o vento que passa

Uma carta que os cajus e cafeeiros

Que as hienas e palancas

Que os jacarés e bagres

Pudessem entender

Para que se o vento a perdesse no caminho

Os bichos e plantas

Compadecidos de nosso pungente sofrer

De canto em canto

De lamento em lamento

De farfalhar em farfalhar

Te levassem puras e quentes

As palavras ardentes

As palavras magoadas da minha carta

Que eu queria escrever-te, amor...



Eu queria escrever-te uma carta...



Mas ah meu amor, eu não sei compreender

Por que é, por que é, por que é, meu bem

Que tu não sabes ler

E eu – Oh! Desespero! –

não sei escrever também!

não sei escrever também!


BALANÇA


Coloca a tua vida
num prato da balança – a tua vida
inteira, não hesites:
cada sonho da infância;
cada desejo ou cada angústia
desse longo e tão mudo purgatório
a que chamaste adolescência;
cada ambição funesta ou virtuosa
que já realizaste ou se perdeu
desde o dia em que alguém te considerou
um adulto sereno, responsável;
e todos os prazeres, todas as alegrias,
todos os medos, todas as esperanças
onde quiseste ver reflectida
a beleza do mundo.

Do outro lado põe apenas
o rosto de quem amas:
os olhos, o sorriso, o tom da voz,
nada mais do que isso.

Depois não tenhas medo:
destrava num só gesto essa balança
e vê o resultado.

 

TARDE DE OUTONO


O POETA

Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?



A SAUDADE

De um puro amor a lânguida saudade
É doce como a lágrima perdida,
Que banha no cismar um rosto virgem:
Volta o rosto ao passado e chora a vida.



O POETA

Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.



A SAUDADE

Pálidos sonhos do passado morto
É doce reviver mesmo chorando:
A alma refaz-se pura. Um vento aéreo
Parece que do amor nos vai roubando.



O POETA

Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?



A SAUDADE

A casa está deserta. A parasita
Nas paredes estampa negra cor,
Os aposentos o ervaçal povoa,
A porta é franca... Entremos, trovador!



O POETA

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me mais prantos, meu Deus!
Eu quero chorar aqui...
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.



A SAUDADE

Sonha, poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo — dos amores à cantiga.



O POETA

Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!



A SAUDADE

É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante:
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem;
E a vida foge ao peito... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E dela a voz é doce como um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do poeta
Doira a amante de nova formosura!



O POETA

Que gemer! não me enganava!
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas
E as venturas choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde:
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
Por ela tanto chorei,
Que mancebo morrerei...
Adeus, amores, adeus!

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