quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre ter segurança...

Imagem: Pat Brennan
Foi de súbito que descobri, no chão, aqueles olhos pequeninos a mirar os meus. O porte mínimo do seu corpinho não parecia se importar com o meu. As asas, que batiam espaçadamente, continuaram o seu típico bailar. Com ternura, me aproximei a contemplar os tons de azul que ora surgiam, ora sumiam. O negro, nas pontas, delimitava, artisticamente, desenhos como mosaicos, espalhados cuidadosamente pelo corpo das asas.
Ela estava ali, imóvel e tranquila. Inquieta, fiquei eu a cismar: Por que será que uma borboleta tão linda não ganhava o ar? Estaria ela ferida? Que fazia ela ali, no chão, onde tudo era mais perigoso? Prontamente me dispus a tirá-la dali. Afinal, alguém poderia pisá-la, esmagá-la.
No entanto, relutante, ela bravamente resistiu a todas as minhas tentativas de movê-la dali. Vencida, sentei-me no chão, ao lado dela. Fiquei ali observando, enquanto ela continuava o seu balé azulado e imóvel, batendo as asas vagarosamente, como se estivesse no ar.
Compreendi, então, que não é porque se tem asas que não se pode preferir a firmeza do chão. Lembrei-me de que, por muitas vezes, eu quis ter asas também. Ganhar o céu e brincar com o vento, num voo profundamente azul. Mas, por certo, em algum momento eu buscaria de novo a segurança do chão.
Não se pode estar o tempo todo no ar, só porque tem asas. É preciso, em alguns momentos, ter a firmeza do chão sob os pés. Então, deixei a borboleta ali, pois era o seu momento de se sentir amparada e segura.
(Descalcei os meus pés e senti a quentura do chão... por enquanto, chega também de voar!).

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